PRÓXIMO ENCONTRO COMUNIDADE DE LEITORES PASSOS EM VOLTA

Local: Chocolate Coffee Book, Rua Judice Bíker, Portimão

16 de Junho, Segunda-feira, 21h30

Obra em discussão: O Castelo de Franz Kafka                                             

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PRÓXIMO ENCONTRO DA COMUNIDADE DE LEITORES PASSOS EM VOLTA

Local: Chocolate Coffee Book, Rua Judice Bíker, Portimão

23 de Maio, Sexta-Feira, 21h30

Obra em discussão: O Castelo de Franz Kafka                                             

 

 

Reunião de Condomínio

Compareceram todos à hora marcada. A sala de condomínio do bairro – havia uns que, gracejando, chamavam-lhe sala de bairromínio – ficava precisamente na praça central do bairro e assemelhava-se a um anfiteatro. Era uma sala pequena, pequena demais para tantos condóminos. À medida em que iam chegando, cumprimentavam-se cerimoniosamente entre si,  Boa noite Senhor Balsac, Boa noite Senhor Kraus, Boa noite Senhor … Todos se tratavam pelo apelido, todos se conheciam, todos sabiam onde moravam. Mas naquela noite ninguém sabia quem tinha marcado aquela reunião, nem a sua ordem de trabalhos. Todos haviam encontrado a carta na caixa do correio e todos tinham reparado que a carta não estava assinada. Apenas tinha data, local e hora. E acrescentava-se na última linha, urgente.

Os condóminos aconchegavam-se e apertavam-se entre si nos bancos corridos do anfiteatro. Tão perto dos ouvidos e das bocas uns dos outros, atreviam-se a perguntar:

– Mas afinal, quem marcou esta reunião? O que é que estamos aqui a fazer?

Alguém respondia:

– Estou totalmente desconfiado que isto só pode ser coisa de mulher, elas é que gostam de tramar coisas às nossas escondidas, estão sempre por aí a dizer que nós damos o nosso nome à história, mas que elas é que são as verdadeiras obreiras da nossa evolução. Por isso, isto …

– Concordo consigo, Senhor Elliot, isto é coisa da Senhora Bausch, a minha vizinha,  já lá no prédio é a mesma coisa … e receio bem que ainda vamos sair daqui em sapatilhas de pontas …

– Eu nunca quis vir morar para aqui, sempre achei este bairro com um ar duvidoso, tantos homens juntos … Agora estamos aqui à mercê de uma entidade misteriosa … Abomino a ideia de ser uma personagem, principal ou secundária, de uma trama que desconheço. Afinal, quem é o director desta película?

– Acalme-se Senhor Wells, a noite ainda agora começou e tudo haveremos  de saber.

A sala encheu-se por completo e todos sabiam que mais ninguém estaria para chegar.

Entretanto, alguém levantou-se e, olhando em volta, disse:

– Como seria de esperar, falta o Senhor Walser.

Todos se entreolharam. Alguém sugeriu que talvez a carta não tivesse chegado à casa dele, no meio daquela tão bonita floresta, vizinha do bairro. Quando o grupo de condóminos, tão apertados entre si, tão dispostos a dividir com o seu vizinho o reduzidíssimo espaço dos bancos corridos, ouviram falar de um condómino habitante e de uma casa – não de um prédio, não de um minúsculo apartamento engaiolado entre outros apartamentos, uns em cima, outros em baixo, outros à frente -, a terem de ser obrigados a cumprimentarem-se cerimoniosamente a todo o momento, em todas as ruas, em todas as esquinas, como um massacrante código de boa vizinhança, todos sentiram crescer entre todos, como um sentimento unificador dessa tão entranhada boa vizinhança, uma inveja na sua  forma mais primária e avassaladora. Permaneceram calados e enrubescidos por segundos, como que a cozerem nessa inveja, todo o resto dos puros sentimentos que ainda possuíam.

-Ah, uma casa na floresta, que magnífico! Será que o Senhor Walser não precisa de um caseiro? Basta-me um pequeno quartinho, aos fundos do quintal, desde que tenha vista para as árvores …

– Francamente, Senhor Pessoa, essa pureza visionária está decadente!

– Ouvi dizer que o Senhor Walser zomba de nós! Que a casa dele é só para ele viver, não quer lá nenhum daqueles incivilizados que moram naquele bairro, lá à frente, que a floresta é o seu santuário merecido, pois ele é um ser muito inteligente e a inteligência é um dom que tem de guardar só para ele. Contaram-me isto tudo lá na padaria.

– Sim, já me tinham contado. E diz que tem grandes expectativas! Vejam só! Expectativas de quê?

– Não percebo. Expectativas de quê? Alguém contou-me que ouviu dizer que a casa é perfeita. Uma obra de arquitectura divina. Uma espécie de jardim suspenso da antiguidade!

– Exactamente, e já ouvi dizert que não quer ninguém lá em casa, porque as visitas podem estragar o soalho de madeira, sujar as paredes com dedadas, podem gastar muita electricidade se o visitarem de noite, entre tantas outras mesquinhas preocupações.

– Ah, eu sempre suspeitei que ele fosse um petulante intelectual, fechado no emaranhado de árvores e arbustos como forma disfarçada de não se misturar com gente menor!

– Posto tudo isto, o que vamos fazer? Parece que já sabemos a razão desta reunião. Uma merecida lição ao Senhor Walser.

– Unidos venceremos o desdém!

– Sugiro que invadamos a sua tão perfeita casa! Lançaremos sobre toda a sua estutura a suspeita da imperfeição, os canos estarão rotos, o tecto terá um buraco pavoroso, a madeira do chão estará afinal mal colada, prestes a estoirar num instante, a instalação eléctrica prestes a provocar um incêndio, uma parede quase a ruir.

– Excelente ideia. A imperfeição mina a casa do Senhor Walser!

– Responsabilizo-me por contratar a equipa de estucadores, canalizadores, electricistas, carpinteiros, todos esses homens vão fazer uma especial companhia ao Senhor Walser. E apresentarei ao condomínio as despesas das obras!

Em uníssono, como sinal de um alívio colectivo, ouviu-se respirar  fundo em todos os condóminos. Vestígio de um acordo generalizado e de uma inveja satisfeita. O Senhor Walser ainda haveria de vir morar para o pé deles, pensaram todos ao abandonarem a sala do bairromínio, não sem antes se despedirem cerimoniosamente.

                                                                                                                                                   Texto de Maria do Rosário Cristóvão

                                                                                                                                                                                1 de Agosto de 2007

Um empreendimento urbanístico-literário

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«E se um dia um viajante» se perdesse num jardim de caminhos que se bifurcam levando a um bairro em cujas ruas e ruelas se encontrasse, sem que o soubessemos, a multiplicidade de possíveis que subtrairiam esse bairro a qualquer tentativa de controlo racional e normalizador da matéria literária? E quem melhor para habitar esse bairro do que os escritores que povoam o nosso imaginário de leitores? Até porque, por obra e graça do arquitecto-escritor desse «bairro», transformados aqueles escritores, assim, em personagens de uma estória que não escreveram, seriam eles, pela sua própria natureza de «personagens de papel», sem biografia, portanto, que não fosse a que é atribuída à sua nova condição ficcional, quem melhor poderia escapar à normalização de uma qualquer tentativa de historiografia literária.

À medida que se expande como um empreendimento literário-urbanístico que visa a dessacralização da figura do autor, o «Bairro» que Gonçalo M. Tavares [série Os Senhores, Caminho] vem projectando, construindo e povoando – sobretudo pela excentricidade dos condóminos que fomos encontrando nas sete moradias entretanto visitadas, cuja arquitectura recorre a um muito subtil mimetismo temático-estilístico dos seus condóminos com que GMT vai fugazmente retraçando figuras da sua recepção literária pessoal -, parece-me reinventar a possibilidade de multiplicação dos possíveis que escapam à coacção da figura do autor, fundando um novo «bairro literário» descentrado da historiagrafia literária estabilizadora.

Os passos em volta

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O Instituto de Cultura Ibero-Atlântica tem o prazer de abrir o seu espaço cultural a todos os amantes da leitura e da partilha das múltiplas intepretações que a narrativa permite. O livro é essa viagem que se desdobra em passos em volta de um caminho escrito e insinuado pelo autor e que na imaginação de cada leitor se instaura como uma experiência inaudita, íntima e livre. A viagem solitária da imaginação pode tomar forma, transformar-se numa narrativa construída a várias vozes, onde cada voz acrescenta uma interpretação, um ponto de vista, uma lembrança, um conhecimento novo, uma dúvida, uma constatação. Se escrever é partilhar, partilhar o que se lê é germinar entre consciências e sensibilidades que procuram a todo o instante a descoberta de um novo sentido.

Deste modo, o ICIA tem o prazer de convidá-lo (a) a juntar-se à Comunidade de Leitores, a juntar os seus passos em volta de um livro e partilhar as suas leituras.

O primeiro encontro de Passos em volta terá lugar no dia 11 de Maio, sexta-feira, às 21.oo horas, no espaço acolhedor da Chocolataria Coffee Book, situada mesmo em frente da Casa Manuel Teixeira -Gomes (Rua Júdice Bicker). Como livro de inauguração destes Passos em volta, definiu-se a obra recentemente publicada da escritora Lídia Jorge, Combateremos a Sombra, editado pela Dom Quixote.

A coordenação da Comunidade de Leitores será feita por Maria do Rosário Cristóvão e João Ventura. Junte os seus passos em volta deste livro. [convite redigido por Maria do Rosário Cristóvão, em 27 de Abril de 2007]

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