PRÓXIMO ENCONTRO COMUNIDADE DE LEITORES PASSOS EM VOLTA

Dia 30 de Junho, 21h30

Local: Sede do Instituto de Cultura Ibero-Atlântica

Largo Dr. Bastos nº 13 – Portimão

Obra em discussão:

CENÁRIOS de Nélio Conceição

No escritório da sua pastelaria, ao longo da madrugada, um homem escreve em segredo. Das suas palavras nascem cenários habitados por personagens que se encontram e desencontram, percorrendo os caminhos do tempo e da memória. Decorrendo essencialmente no Portugal contemporâneo, em duas cidades sem nome, a das personagens e a do escritor, Cenários é um livro sobre as ligações e a escrita.

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Próximas Leituras Comunidade de Leitores Passos em Volta

                  

O Castelo

de Franz Kafka

Último romance de Kafka, O Castelo começou a ser escrito em 1922, na República Checa. Kafka morreu antes de terminar a obra, sendo posteriormente  publicada, em 1926, pelo seu amigo Max Brod, que não terá cumprido o pedido de autor para destruir todos os seus manuscritos.

O romance narra a história de um homem, K., e da sua ineficaz luta contra a autoridade. É esta autoridade que governa o castelo onde K. é solicitado a comparecer para trabalhar como agrimensor. Contudo, por mais que tente, não consegue entrar no castelo, ficando na vila que o rodeia.

Kafka considerou o seu romance como um falhanço, mas a crítica reconheceu-o como um dos melhores romances do século XX e o melhor do escritor.

 

Próximo encontro da Comunidade de Leitores Passos em Volta

2 de Maio, 21.30h

Chocolate Coffee Book

     

Próximas Leituras da Comunidade de Leitores Passos em Volta

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 Jakob Von Gunten- Um Diário

de Robert Walser

Terceiro romance do escritor suiço Robert Walser (1878-1956), Jakob Von Gunten foi escrito em 1909, em Berlim.

O protagonista principal do livro é aluno do Instituto Benjamenta, uma escola para formar criados, onde se procurava incutir paciência e obediência. Em vez de formar a personalidade dos alunos, o instituto apaga-a. Através do diário do estudante Jakob desfilam personagens e situações de uma «história singularmente delicada», usando a expressão de Walter Benjamin.      

Robert Walser é um dos génios literários do século XX. A sua obra constitui uma perturbante indagação acerca da natureza do ser humano e da perplexidade que lhe provoca o mundo, e os poderes instituídos.

Para saber mais sobre Jakob Von Gunten- Um Diário e sobre a obra de Robert Walser, visite

http://oquecaidosdias.wordpress.com/2007/05/09/no-territorio-do-lapis/

Próximo encontro da Comunidade de Leitores Passos em Volta 

17 de Março, 21.30h

Chocolate Coffee Book 

Sobre a leitura

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Esta comunidade anda adormecida. Não lê ou prefere não falar sobre o que lê. Ou talvez as últimas escolhas não suscitem o desejo de ir mais além da leitura. O que parece certo é que o livro de Inês Pedrosa não nos levou ao encontro anunciado. Por isso, proponho que repensemos as escolhas a partir dos nossos mapas pessoais de leitura, desenhando itinerários de leitura que podem ser temáticos, épocais, geográficos, etc, com as suas estações que são os livros que escolheremos para ler e depois falar em conjunto. Acordemos a comunidade. Talvez, então, começar por falar ddo livros que lemos e de como os lemos. Deixo aqui um texto já publicado no meu blogue O que cai dos dias como mote para encetar aqui uma conversa em torno dos livros e da leitura. Deixarei aqui, depois, também, propostas concretas para esse itinerário que poderemos seguir juntos. Mas se quiserem antecipar, deixem-se ir por aí e vejam O que cai dos dias. Ali encontrarão algumas estantes da minha biblioteca pessoal, a povoar também com as vossas sugestões.

Encontro sempre outros livros nos livros que leio. E leio-os procurando escapar às tentações hermenêuticas que sustentam uma certa leitura crítica, profissionalizante, controladora do sentido dos textos através de uma axiomática que procura iluminar o oculto, e que Foucault descrevia como uma «vontade de verdade». Não, não vou por aí, perseguindo a ilusória linha contínua da hybris do novo iluminismo. Prefiro os labirintos benjaminianos embebidos na tinta dos livros. E, por isso, prefiro os livros onde se recorta a trama da vida, com as suas cesuras que remetem para outras vidas contadas noutros livros. Gosto, então, de livros onde ecoam outros livros, outros autores, outras tramas. Livros que remetem, que aludem, que citam. Livros onde um só fragmento, uma evocação pode levar a outros caminhos que neles se bifurcam. Livros que abrem para outras possibilidades de leitura. Livros que se fazem e desfazem enquanto os lemos. Todas as leituras são provisórias, porque nunca relemos um livro da mesma maneira que o lemos da primeira vez. Logo, a leitura é arriscada. Como a vida. Escapar, assim, à imanência do texto, através de uma hipertextualidade não tecnológica, perscrutando no vestido do texto as passagens para outros textos. «Perder-se numa cidade como se perde numa floresta exige toda uma educação», escreveu Walter Benjamin. Sim, perder-me num livro e reencontrar-me noutro. Não para me confortar, mas para abanar convicções. A leitura, então, como experiência do mundo, mesmo que o livro seja um clássico, até que, por definição, clássicos são aqueles livros que permanecem actuais, pois neles «surpreende que um rasto já há muito extinto no ar ou na água possa continuar visível, aqui, no papel». Nada está oculto nesta definição de leitura oferecida por W. G. Sebald. Nada está oculto nos livros que me são dados a ler, pois neles também se faz e desfaz, à medida que os leio, – como escreveu Bataille – a «experiência interior que corresponde à necessidade em que me acho em cada momento». Por isso, porque também sou escritor desses livros que leio, renego aquilo a que Deleuze chamava de «interpretose» e que continua a assolar a crítica universitária contemporânea. Porque é preciso nunca falhar a ocasião da leitura, o que só acontece se soubermos adentrarmo-nos nos mundos paralelos que se bifurcam nos livros. Não em todos, claro, apenas naqueles que escolhemos como quem escolhe um bem precioso. Esses são os livros que leio e sobre os quais, numa fulguração momentânea, até mesmo Kafka, contrariando todos os seus intérpretes futuros, escreveu: «atravessando as palavras há restos de luz».

Próximas Leituras da Comunidade de Leitores Passos em Volta

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A ETERNIDADE  E O DESEJO

INÊS PEDROSA

O novo romance de Inês Pedrosa, A Eternidade e o Desejo, explora o Brasil moderno em diálogo com a vida amorosa do jesuíta do século XVII, Padre António Vieira, um mestre canónico da literatura portuguesa. A autora de Fazes-me falta, romance que vendeu mais de 100 mil exemplares, revisita os lugares percorridos pelo padre em terras de Vera Cruz, pela mão de Clara e Sebastião. A protagonista, historiadora e professora universitária, regressa à Bahia, onde em tempos perdeu a visão e um amor, sempre guiada pela luz dos textos de Vieira. O amor por outro António «devorou-lhe» os olhos. O amor por este António ensinou-lhe a virtude pela independência.

A Eternidade e o Desejo mistura fragmentos de sermões do Padre António Vieira com a narrativa de um outro encontro de uma apaixonada portuguesa pela obra do escritor e missionário. Um diálogo com que Inês Pedrosa pretende homenagear e ressuscitar a obra de Vieira.

«Vieira não foi apenas nem sobretudo um padre. Foi um magistral escritor e orador, um pioneiro dos direitos humanos e um bom diplomata, embora nem sempre acertasse nas causas e nos apoios (…) Era um voluntário da ingenuidade, como costumam ser as pessoas que nascem com a mania de melhorar o mundo.»

Boas Leituras! 

Reunião de Condomínio

Compareceram todos à hora marcada. A sala de condomínio do bairro – havia uns que, gracejando, chamavam-lhe sala de bairromínio – ficava precisamente na praça central do bairro e assemelhava-se a um anfiteatro. Era uma sala pequena, pequena demais para tantos condóminos. À medida em que iam chegando, cumprimentavam-se cerimoniosamente entre si,  Boa noite Senhor Balsac, Boa noite Senhor Kraus, Boa noite Senhor … Todos se tratavam pelo apelido, todos se conheciam, todos sabiam onde moravam. Mas naquela noite ninguém sabia quem tinha marcado aquela reunião, nem a sua ordem de trabalhos. Todos haviam encontrado a carta na caixa do correio e todos tinham reparado que a carta não estava assinada. Apenas tinha data, local e hora. E acrescentava-se na última linha, urgente.

Os condóminos aconchegavam-se e apertavam-se entre si nos bancos corridos do anfiteatro. Tão perto dos ouvidos e das bocas uns dos outros, atreviam-se a perguntar:

– Mas afinal, quem marcou esta reunião? O que é que estamos aqui a fazer?

Alguém respondia:

– Estou totalmente desconfiado que isto só pode ser coisa de mulher, elas é que gostam de tramar coisas às nossas escondidas, estão sempre por aí a dizer que nós damos o nosso nome à história, mas que elas é que são as verdadeiras obreiras da nossa evolução. Por isso, isto …

– Concordo consigo, Senhor Elliot, isto é coisa da Senhora Bausch, a minha vizinha,  já lá no prédio é a mesma coisa … e receio bem que ainda vamos sair daqui em sapatilhas de pontas …

– Eu nunca quis vir morar para aqui, sempre achei este bairro com um ar duvidoso, tantos homens juntos … Agora estamos aqui à mercê de uma entidade misteriosa … Abomino a ideia de ser uma personagem, principal ou secundária, de uma trama que desconheço. Afinal, quem é o director desta película?

– Acalme-se Senhor Wells, a noite ainda agora começou e tudo haveremos  de saber.

A sala encheu-se por completo e todos sabiam que mais ninguém estaria para chegar.

Entretanto, alguém levantou-se e, olhando em volta, disse:

– Como seria de esperar, falta o Senhor Walser.

Todos se entreolharam. Alguém sugeriu que talvez a carta não tivesse chegado à casa dele, no meio daquela tão bonita floresta, vizinha do bairro. Quando o grupo de condóminos, tão apertados entre si, tão dispostos a dividir com o seu vizinho o reduzidíssimo espaço dos bancos corridos, ouviram falar de um condómino habitante e de uma casa – não de um prédio, não de um minúsculo apartamento engaiolado entre outros apartamentos, uns em cima, outros em baixo, outros à frente -, a terem de ser obrigados a cumprimentarem-se cerimoniosamente a todo o momento, em todas as ruas, em todas as esquinas, como um massacrante código de boa vizinhança, todos sentiram crescer entre todos, como um sentimento unificador dessa tão entranhada boa vizinhança, uma inveja na sua  forma mais primária e avassaladora. Permaneceram calados e enrubescidos por segundos, como que a cozerem nessa inveja, todo o resto dos puros sentimentos que ainda possuíam.

-Ah, uma casa na floresta, que magnífico! Será que o Senhor Walser não precisa de um caseiro? Basta-me um pequeno quartinho, aos fundos do quintal, desde que tenha vista para as árvores …

– Francamente, Senhor Pessoa, essa pureza visionária está decadente!

– Ouvi dizer que o Senhor Walser zomba de nós! Que a casa dele é só para ele viver, não quer lá nenhum daqueles incivilizados que moram naquele bairro, lá à frente, que a floresta é o seu santuário merecido, pois ele é um ser muito inteligente e a inteligência é um dom que tem de guardar só para ele. Contaram-me isto tudo lá na padaria.

– Sim, já me tinham contado. E diz que tem grandes expectativas! Vejam só! Expectativas de quê?

– Não percebo. Expectativas de quê? Alguém contou-me que ouviu dizer que a casa é perfeita. Uma obra de arquitectura divina. Uma espécie de jardim suspenso da antiguidade!

– Exactamente, e já ouvi dizert que não quer ninguém lá em casa, porque as visitas podem estragar o soalho de madeira, sujar as paredes com dedadas, podem gastar muita electricidade se o visitarem de noite, entre tantas outras mesquinhas preocupações.

– Ah, eu sempre suspeitei que ele fosse um petulante intelectual, fechado no emaranhado de árvores e arbustos como forma disfarçada de não se misturar com gente menor!

– Posto tudo isto, o que vamos fazer? Parece que já sabemos a razão desta reunião. Uma merecida lição ao Senhor Walser.

– Unidos venceremos o desdém!

– Sugiro que invadamos a sua tão perfeita casa! Lançaremos sobre toda a sua estutura a suspeita da imperfeição, os canos estarão rotos, o tecto terá um buraco pavoroso, a madeira do chão estará afinal mal colada, prestes a estoirar num instante, a instalação eléctrica prestes a provocar um incêndio, uma parede quase a ruir.

– Excelente ideia. A imperfeição mina a casa do Senhor Walser!

– Responsabilizo-me por contratar a equipa de estucadores, canalizadores, electricistas, carpinteiros, todos esses homens vão fazer uma especial companhia ao Senhor Walser. E apresentarei ao condomínio as despesas das obras!

Em uníssono, como sinal de um alívio colectivo, ouviu-se respirar  fundo em todos os condóminos. Vestígio de um acordo generalizado e de uma inveja satisfeita. O Senhor Walser ainda haveria de vir morar para o pé deles, pensaram todos ao abandonarem a sala do bairromínio, não sem antes se despedirem cerimoniosamente.

                                                                                                                                                   Texto de Maria do Rosário Cristóvão

                                                                                                                                                                                1 de Agosto de 2007

Um empreendimento urbanístico-literário

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«E se um dia um viajante» se perdesse num jardim de caminhos que se bifurcam levando a um bairro em cujas ruas e ruelas se encontrasse, sem que o soubessemos, a multiplicidade de possíveis que subtrairiam esse bairro a qualquer tentativa de controlo racional e normalizador da matéria literária? E quem melhor para habitar esse bairro do que os escritores que povoam o nosso imaginário de leitores? Até porque, por obra e graça do arquitecto-escritor desse «bairro», transformados aqueles escritores, assim, em personagens de uma estória que não escreveram, seriam eles, pela sua própria natureza de «personagens de papel», sem biografia, portanto, que não fosse a que é atribuída à sua nova condição ficcional, quem melhor poderia escapar à normalização de uma qualquer tentativa de historiografia literária.

À medida que se expande como um empreendimento literário-urbanístico que visa a dessacralização da figura do autor, o «Bairro» que Gonçalo M. Tavares [série Os Senhores, Caminho] vem projectando, construindo e povoando – sobretudo pela excentricidade dos condóminos que fomos encontrando nas sete moradias entretanto visitadas, cuja arquitectura recorre a um muito subtil mimetismo temático-estilístico dos seus condóminos com que GMT vai fugazmente retraçando figuras da sua recepção literária pessoal -, parece-me reinventar a possibilidade de multiplicação dos possíveis que escapam à coacção da figura do autor, fundando um novo «bairro literário» descentrado da historiagrafia literária estabilizadora.