I Encontro da Comunidade de Leitores Passos em Volta

I Encontro Comunidade de Leitores Passos em Volta

Teve lugar no passado dia 11 de Maio, na chocolataria Coffe Book em Portimão, o I Encontro da Comunidade de Leitores Passos em Volta, que teve como obra em debate, Combateremos a Sombra, o último romance de Lídia Jorge.

Foi com grande entusiasmo que os leitores da Comunidade participaram no encontro, debatendo as suas ideias e interpretações sobre o mais recente romance da escritora algarvia.

Ficção com um assomo político; romance ético-pedagógico; a análise de um país abandonado à sombra; o mundo real e o mundo onírico; as regras e contra-regras da sociedade; o confronto entre a vida pessoal das personagens e a sociedade; a loucura ou a “normalidade social”; a fantasia e a imaginação como escape do mundo real e da conspiração do silêncio; a revolta e o desejo de denúncia; a corrupção impune e a conivência de muitos; foram alguns dos temas suscitados pela obra em questão e que serviram de mote a este primeiro encontro da Comunidade de Leitores do ICIA.

O último romance da escritora que teve um psicanalista durante três anos a “bater-lhe à porta”, uma personagem que incessantemente quis ganhar vida, levou a que os leitores da Comunidade tivessem também a bater-lhes à porta a reflexão provocada pelas páginas de um livro cuja mensagem persiste para lá da leitura.

Combateremos a Sombra parte da história de um psicanalista invulgar que na sua constante decifração da alma humana e ao relacionar-se com duas mulheres, Maria London, a sua “paciente magnífica”, e Rossiana, que surge no prédio do seu consultório, se depara com vários elementos denunciadores de uma rede de tráfico que envolve várias personalidades públicas. A sua intenção de denúncia fá-lo confrontar o seu desejo de consertar o mundo, o caminho da incomodidade, com a teia de cumplicidades em torno do silêncio que existe na sociedade, onde alguns ignoram, outros sabem e fingem não saber, existindo ainda os que sabem e procuram denunciar, lutando contra uma imensidão de obstáculos.

Mas o diálogo entre os leitores da Comunidade não ficou por aqui e foi ainda ancorar noutros portos, noutros locias, transportando-se para outros escritores e outras estórias, tornando evidente o desejo de se continuar a partilhar experiências de leitura, palavras, ideias e personagens que habitam o local sagrado da escrita, dos mundos que vêm ao encontro de quem as lê, que por sua vez quer oferecer aos outros. As múltiplas interpretações, a polissemia das narrativas, a construção de imagens e significados por parte dos leitores e a sua necessidade de partilha, a verbalização dos muitos significados que a mensagem escrita transporta, mas também a curiosidade pelas múltiplas interpretações dos outros, seus significados, leva a este desejo iminente de colocar em diálogo as ideias e discuti-las, enriquecendo a interpretação.     

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Os arredores dos livros

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Surpreende-se Lídia Jorge porque Manuel Maria Carrilho ficou surpreendido quando a escritora o convidou para apresentar o seu novo romance, Combateremos a sombra [leia texto Ormertá à portuguesa de M. Maria Carrilho, publicado na edição do JL, de 25 de Abril de 2007]. Ele, também, nas palavras da escritora, um homem de causas. Como ela, digo eu. Depois, evoca Lilith, esse filme perturbante, esquecido, de Robert Rossen que, fica-se a saber, ambos viram. Um filme, desde logo, a aproximar a escritora e o apresentador. Ou melhor, o excelente leitor, como disse Lídia. E porquê este filme? Talvez porque, também em Lilith, as personagens interpretadas por Warren Beatty e Jean Seberg procurem viver contra o seu tempo. Talvez porque, também aí, os territórios do onírico nos sejam abertos por um decrifrador de histórias, um enfermeiro psiquiátrico. Ou talvez, sobretudo, porque também Rossen era um homem de causas. Esta evocação, enigmática, seria o primeiro assombro da noite de ontem, na Casa Fernando Pessoa, onde perante numerosos amigos, como Lídia Jorge fez questão de sublinhar, foi apresentado o romance Combateremos a sombra. Antes, já Carrilho tinha dito que por detrás da escrita enigmática da escritora, do outro lado da sombra era um país inteiro que se escondia. Um país fantasmal enredado numa teia pantanosa de mesquinhez, de mentira, de toda a espécie de tráficos que ninguém quer ver. Uma teia que não mostra os fios, apenas os nós, diz Carrilho que nos oferece uma leitura política do livro. Um livro político? Nem tanto. Lídia Jorge prefere-o como uma ficção com um assomo político. Mas esta é uma noite de confissões. Primeiro, as do livro – de Maria London – decifradas por Carrilho. Agora, as de Lídia que escolhe falar naquilo que ela chama os arredores dos livros. Como se escreve um romance? Como escreveu este romance ao longo de três anos? Mais um, o tempo que demorou o complexo namoro com Osvaldo Campos, o personagem que lhe vai entrando pela casa, sem que, primeiro, a escritora o deseje, mas que, depois, fica e não mais sai da casa do romance. Escrever é fácil, dífícil é encontrar um personagem com inteireza, explica Lídia. Ao longo de um ano Osvaldo foi povoando o seu sono e a sua vigília. Os sonhos são a literatura do sono, disse-lhe Carlos Albino durante esses dias. Agora o romance já podia ser posto em andamento. Depois vieram outras cumplicidades. Uma passagem pelos arredores do livro, com nomes próprios. Confissões. António Mendes Pedro, psicanalista na vida, que ajudou a moldar o psicanalista na ficção Osvaldo Campos, a controlar este funâmbulo, este trapezista sem fato e sem rede. Questão de verosimilhança. Outro cúmplice, Orlando Soares, que aferiu tudo o que havia para aferir sobre barcos. Os paquetes navegando na sombra. O porto de Lisboa onde mora a beleza, mas também espreita a ameaça. Até a atmosfera de Stavanger é mesma que Lídia descreve. Quando a gente se põe a escrever até imagina a geografia, diz. Outra geografia, ainda, a dos subterrâneos da criminalidade, por onde Lídia se aventurou guiada pelo jornalista Rui Araújo. A primeira leitora, Vera Monteiro Torres. O Duarte, também leitor, sempre. Três, quatro anos de vida de Lídia. 71 dias completamente isolada na casa da minha mãe, no Algarve. E, finalmente, a capa para cobrir tudo isto. Lídia telefonando a Manuel Tomás, pedindo-lhe as suas costas. Um ramo de rosas a incendiar a sombra. Assombros: Osvaldo Campos, o meu Dom Quixote de estimação, as três mulheres, Maria London, a paciente magnífica, Rossiana, Ana Fausto, vidas de papel que se assemelham à vida de pessoas, um consultório de um psicanalista, um onirismo revelador, um país fantasmal, uma ficção com um assomo político. Um livro para combater a sombra. Hoje. [transcrição do post editado por João Ventura em O que cai dos dias, em 23 de Março de 2007]

Portugal no divã

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Comecei a escrever para poder responder a alguma coisa longínqua que me chamava. A realidade era mesquinha, não chegava, escrevia e no final da página conseguia esse percurso, confessa Lídia Jorge em entrevista publicada no Jornal de Letras [leia tb. a entrevista publicada em 13/o4/07, no Portal da Literatura]. Três décadas depois do seu romance inaugural, O dia dos prodígios, a realidade continua a ser mesquinha e, por isso, Lídia Jorge continua a responder ao apelo do longínquo, agora com a maturidade literária que fez dela uma das escritores portuguesas mais premiadas. Esse percurso singular levou-a, quase cinco anos depois de ter publicado O vento assobiando nas gruas, a publicar um novo romance contra a mesquinhez e a mentira. Combateremos a sombra, que será apresentado na próxima 5º feira, na Casa Fernando Pessoa, é, como a autora sublinha noutra entrevista ao Ípsilon, um livro muito, muito português, espécie de divã onde Portugal se deita e nos revela o resultado de anos de recalcamento, de frustrações, de sujidade atirada para debaixo do tapete. São duas entrevistas que se complementam, antecipando o novo livro que vem aí. Com a lucidez que a caracteriza, Lídia Jorge diz que anos e anos de esmagamento conduziram o país a uma postura depressiva, por isso, no romance poderá ler-se, a certa altura, que calmantes e sedativos tinham-se esgotado nas farmácias. Sabia-se, via-se, lia-se nos jornais. Mais do que o desmoronar de uma ponte em Entre-os-Rios, são as próprias fundações de um país que roçam o abismo correndo o risco de, também ele se afundar nas águas escuras dos dias que correm. O ruir da ponte como metáfora de um país com medo de existir, anestesiado por sedativos e calmantes que escondem a verdadeira dimensão da nossa tragédia colectiva. Os autocarros puxados pelas gruas do fundo dos lodos ficavam a balouçar na imaginação ao longo dos dias revoltos. (…) Bastava amanhecer um dia mais claro e já tudo passava. Psicanálise de um país à procura de uma pele nova. Que está perdendo uma e ainda não encontrou a outra. Onde está tudo a descoberto. Há zonas em carne viva e zonas em carne morta. Por isso, é preciso agir, como escreve na sua agenda a personagem central do romance: a mentira é parente da morte, a análise é inimiga dos mitos, agir é preciso. Lídia Jorge age através da escrita deste romance, uma ficção com um assomo político, obedecendo a um impulso de melancolia, mas também de raiva contra este processo de revisão cíclica de marcar passo. A literatura como ética da responsabilidade e da convicção, que vale como denúncia, sobretudo, se tiver imaginação suficiente para responder a essa ética. Lídia Jorge acredita na possibilidade da mudança, por isso, assume-se como testemunha, com vontade de ser cronista do tempo que passa, recolhendo a matéria impura de que se veste a sua escrita. Eu prefiro que a escrita seja um vestido, diz. Um vestido que veste a realidade tanto com o que as suas páginas contém – isto é, as suas metáforas, as figuras, as vozes, os diálogos – como nas páginas que faltam, (…) o espaço em branco que se segue à última página, que continuamos a ler cem anos depois. E também com o que está nas linhas invisíveis que atravessam essas páginas. Lídia Jorge é uma escritora e uma mulher de acção. Neste romance age através do herói romanesco, o psicanalista Osvaldo Campos, colocando-se atrás do seu ombro, acompanhando-o num longo travelling, pedindo emprestada a voz que ele, por razões deontológicas, tem de silenciar. Apaixonei-me por este funâmbulo, este trapezista sem fato e sem rede. Osvaldo Campos é um homem justo (…), o meu Dom Quixote de estimação, com quem ando há muito tempo a conviver. Na vida age intervindo civicamente, empenhando-se em causas, como a do referendo ao aborto, perseguindo novas linhas de fuga para atravessar a sombra. Dando-se como aparecida. [transcrição do post editado, por João Ventura em O que cai dos dias, em 18 Março de 2007]