Próximas Leituras da Comunidade de Leitores Passos em Volta

pasavento1.jpg

DOUTOR PASAVENTO

de Enrique Vila-Matas

Um escritor espanhol razoavelmente conhecido decide desaparecer da vida pública, esperando que dêem pela sua falta e o procurem. Assim começa a história narrada pelo escritor catalão Enrique Vila-Matas, considerado o melhor romance de 2006 publicado em Espanha e vencedor do Prémio Real Academia Espanhola 2006.

O protagonista da história, Andrés Pasavento, tem como herói moral o escritor suiço Robert Walser, que resolveu rejeitar a notoriedade e retirar-se do mundo. Pasavento decide perseguir o destino desse escritor, como prova a sua caligrafia que se vai tornando cada vez mais microscópica e o leva a substituir o traço da caneta pelo do lápis, porque sente que este se aproxima mais do desaparecimento, do eclipse.

Um dia desaparece, acreditando que lhe iria suceder o mesmo que a Agatha Christie, que toda a Inglaterra procurou quando desapareceu, acabando por a encontrar 11 dias depois. Mas ninguém procura o Doutor Pasavento. Assim, renuncia ao eu, à sua grandeza e à sua suposta dignidade, ao ponto de acreditar que encarna a história da desaparição do sujeito no Ocidente. No entanto, pergunta-se se será capaz de viver sem que ninguém se lembre que existe…   

Leia mais sobre esta obra em:

 http://oquecaidosdias.wordpress.com/2007/06/20/239/

O próximo encontro da Comunidade realizar-se-á a 11 de Fevereiro, segunda-feira, pelas 21h30, no Chocolate Coffee Book. 

Até lá, Boas Leituras! 

      

Sobre a leitura

books.jpg 

Esta comunidade anda adormecida. Não lê ou prefere não falar sobre o que lê. Ou talvez as últimas escolhas não suscitem o desejo de ir mais além da leitura. O que parece certo é que o livro de Inês Pedrosa não nos levou ao encontro anunciado. Por isso, proponho que repensemos as escolhas a partir dos nossos mapas pessoais de leitura, desenhando itinerários de leitura que podem ser temáticos, épocais, geográficos, etc, com as suas estações que são os livros que escolheremos para ler e depois falar em conjunto. Acordemos a comunidade. Talvez, então, começar por falar ddo livros que lemos e de como os lemos. Deixo aqui um texto já publicado no meu blogue O que cai dos dias como mote para encetar aqui uma conversa em torno dos livros e da leitura. Deixarei aqui, depois, também, propostas concretas para esse itinerário que poderemos seguir juntos. Mas se quiserem antecipar, deixem-se ir por aí e vejam O que cai dos dias. Ali encontrarão algumas estantes da minha biblioteca pessoal, a povoar também com as vossas sugestões.

Encontro sempre outros livros nos livros que leio. E leio-os procurando escapar às tentações hermenêuticas que sustentam uma certa leitura crítica, profissionalizante, controladora do sentido dos textos através de uma axiomática que procura iluminar o oculto, e que Foucault descrevia como uma «vontade de verdade». Não, não vou por aí, perseguindo a ilusória linha contínua da hybris do novo iluminismo. Prefiro os labirintos benjaminianos embebidos na tinta dos livros. E, por isso, prefiro os livros onde se recorta a trama da vida, com as suas cesuras que remetem para outras vidas contadas noutros livros. Gosto, então, de livros onde ecoam outros livros, outros autores, outras tramas. Livros que remetem, que aludem, que citam. Livros onde um só fragmento, uma evocação pode levar a outros caminhos que neles se bifurcam. Livros que abrem para outras possibilidades de leitura. Livros que se fazem e desfazem enquanto os lemos. Todas as leituras são provisórias, porque nunca relemos um livro da mesma maneira que o lemos da primeira vez. Logo, a leitura é arriscada. Como a vida. Escapar, assim, à imanência do texto, através de uma hipertextualidade não tecnológica, perscrutando no vestido do texto as passagens para outros textos. «Perder-se numa cidade como se perde numa floresta exige toda uma educação», escreveu Walter Benjamin. Sim, perder-me num livro e reencontrar-me noutro. Não para me confortar, mas para abanar convicções. A leitura, então, como experiência do mundo, mesmo que o livro seja um clássico, até que, por definição, clássicos são aqueles livros que permanecem actuais, pois neles «surpreende que um rasto já há muito extinto no ar ou na água possa continuar visível, aqui, no papel». Nada está oculto nesta definição de leitura oferecida por W. G. Sebald. Nada está oculto nos livros que me são dados a ler, pois neles também se faz e desfaz, à medida que os leio, – como escreveu Bataille – a «experiência interior que corresponde à necessidade em que me acho em cada momento». Por isso, porque também sou escritor desses livros que leio, renego aquilo a que Deleuze chamava de «interpretose» e que continua a assolar a crítica universitária contemporânea. Porque é preciso nunca falhar a ocasião da leitura, o que só acontece se soubermos adentrarmo-nos nos mundos paralelos que se bifurcam nos livros. Não em todos, claro, apenas naqueles que escolhemos como quem escolhe um bem precioso. Esses são os livros que leio e sobre os quais, numa fulguração momentânea, até mesmo Kafka, contrariando todos os seus intérpretes futuros, escreveu: «atravessando as palavras há restos de luz».