Uma judia de Lisboa

 

«Andei a passear com a Miriam Tívon [tradutora de Saramago] nas ruas com o nome dos profetas, naquela Jerusalém dos comerciantes que ainda conheci [nos anos 60] e isso ficou para sempre. É uma Israel que já não existe», conta em entrevista ao Público, Lúcia Liba Mucznik, a tradutora do livro de Amos Oz que reconhece na História de Amor e Trevas, também, um pouco da sua própria história. Também o pai nasceu na mesma Europa de Oz, na Galicia, Polónia, no seio de uma comunidade ultra-ortodoxa. E a mãe em Varsóvia.  A família veio para Portugal no início do século XX, tendo o avô paterno instalado uma loja de instrumentos musicais na Rua da Madalena, à frente da qual ficou o pai de Lúcia, enquanto o avô partia para Israel, em 1931, «porque era sionista, e activo, aventuroso». A história da família do pai é mais sinuosa e retrata a fuga aos pogroms que se abatiam sobre os judeus polacos. Foi assim que viajaram até Lisboa, de comboio. Os que ficaram na Polónia «morreram quase todos na guerra».

Lúcia lembra-se da mãe cozinhar todas as sextas-feiras o mesmo peixe de que fala Oz no livro; das velas que se acendiam no shabat; de falar-se em casa polaco e iídiche quando os pais não queriam que os filhos percebessem a conversa; e, depois, tal como Oz, aos 13 anos, de trabalhar  num kibutz, perto de Jerusalém. Nunca foi aos territórios ocupados, embora gostasse de ter ido. Lúcia, agora, vive em Portugal, embora gostasse de viver em Israel, apesar de não apoiar tudo o que lá se passa.

E não duvida que este livro de Oz é o livro da utopia judaica que «sonhava com Israel no tempo em que não havia Israel e agora sonha com a Europa».

Lúcia Liba Mucznik vem à comunidade de leitores dia 13 de Outubro. Para nos confrontar com as nossas convicções.

A insustentável objectividade de Amos Oz

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E como classificar esta História de Amor e Trevas? Um livro «muito proustiano», carregado de «cheiros, sons, imagens que ajudaram a lembrar» – como disse Amos Oz numa entrevista ao Ípsilon, em 9 de Março passado -, arrancados às pedras de Jerusalém. Curiosamente, também a tradutora do livro para português, Lúcia Liba Mucznik – uma judia askenazita que vive há muito em Portugal – andou a «passear nas ruas com o nome dos profetas, naquela Jerusalém dos comerciantes», o que torna a versão portuguesa deste romance duplamente autobiográfica, pois autor e tradutora partilham o mesmo sentimento de continuidade face à residualidade dos lugares. Até porque a memória é sempre residual, acolhe-se nos lugares, nos vestígios que Oz involuntariamente vai exumando contra o esquecimento, como a «madalena de Proust». Por isso este romance autobiográfico, uma «mémoire» como o classifica o próprio Oz, não pode ser neutro relativamente à matéria que narra. A sua insustentável objectividade decorre desde logo do facto do autor se encontrar marcado pela afecção da sua experiência posterior – o livro é escrito quase cinquenta anos depois dos acontecimentos centrais que narra -, o que lhe impôs naturalmente o exercício do juízo e da tomada de posição face ao vivido no passado. Ora é justamente essa subjectivação do discurso autobiográfico que confere autenticidade a uma História, narrada segundo a perspectiva da posição adoptada pelo autor. Sendo que a posição aqui é a de alguém que não se constitui como um narrador indiferente, mas como um protagonista empenhado em construir uma versão empenhada do sionismo. Diminuirá isto o livro? Claro que não. Antes oferece aos leitores a perspectiva de um israelita que encarnando a velha utopia sionista dos askenazitas fundadores de Israel gostaria de viver numa terra habitada por dois povos, como prova o seu posicionamento crítico no movimento Peace Now que ajudou a criar. Mas falhada por várias vezes a ocasião de paz, é a catástrofe que vai serpenteando nessa «terra prometida», agora sob a forma de uma muralha de ódio. Poderá este livro, que foi muito bem recebido em Israel, contribuir para quebrar a solidão irredutível dos dois povos? Até porque – e no livro isso percebe-se bem – os judeus jamais quererão regressar à sua condição de párias errantes num mundo que os repudiou e os palestinianos jamais abandonarão a sua terra mesmo que ela se vá tornando cada vez mais numa prisão de altos muros. Esta a insustentável objectividade Oz. E a nossa?

Requiem, de Amos Oz

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No bairro de Kerem Avraham, em Jerusalém, onde Amos Oz cresceu, muitos eram tolstoianos invertebrados, «barbas brancas ao vento», «tolstoischkis» caídos de um romance de Dostoievsky: «torturados, faladores […], idealistas atormentados, mas todos trabalhavam efectivamente para Checov» (pág. 9). Eram funcionários, escritores, enfermeiras, utopistas, tradutores, pequenos comerciantes, bibliotecários, empregados de escritório, ideólogos, logistas, intelectuais constrangidos a executar trabalhos ingratos e vivendo no despojamento e com a paixão do estudo, velhos solitários que sobreviviam com magras economias… Quando a noite caía, as portadas das janelas eram fechadas, as portas eram trancadas e apenas a reverberação do luar derramava uma morna luminosidade nas ruas desertas. Havia também os pioneiros que viviam para lá dos montes escuros de Jerusalém, na Galileia, no Sharon, nos desertos das margens do Mar Morto, nas planícies costeiras; e «era lá que do miserável pó se fazia uma nação combatente» (pág. 11). E havia ainda Telavive, «cidade efervescente» cheirando a maresia, «como um projecto secreto e vital do povo judeu»(pág. 13). , onde havia mesmo «judeus bronzeados que sabiam nadar. Quem em Jerusalém sabia nadar?» (pág. 11). Ninguém. Seguramente não o sabiam aqueles tolstoianos e dostoievkianos que, refugiados em habitações minúsculas, discutiam num hebraico hesitante o destino de Israel, mas sonhavam ainda num iídiche que lhes recordava os tempos sombrios de um qualquer «shtetl» na Polónia, na Rússia ou na Roménia, onde imaginaram uma terra para lá do horizonte, «no outro lado do rio e da floresta, para onde deveriam partir em breve porque o tempo dos Judeus na Europa estava contado». Vinham cuspidos de uma Europa que os tratava como cidadãos de segunda, escapando aos pogroms primeiro, a Hitler depois e a Estaline mais tarde um passado cheio de cadáveres  , à procura de uma terra prometida que «não existia e que talvez nunca tenha existido, a não ser [nos] sonhos de juventude»(pág. 332). Mas era para Odessa, para Vilnius, para Rovno que sempre viravam o olhar, como se aí se encontrasse a verdadeira «terra prometida e proibida, o lugar nostálgico dos campanários e das velhas praças empedradas, dos elécticos, das pontes e das torres das catedrais, das aldeias isoladas, das fontes termais, das florestas e dos prados cobertos de neve» (pág. 7). 

Nesse tempo, o pequeno Amos «queria ser um livro quando fosse grande. Não um escritor, mas um livro. Por medo» (pág. 365). Medo dos tanques de Rommel que ameaçavam Israel. Medo que os britânicos não quisessem partir. E medo do aconteceria depois da sua partida, entregues à sede de vingança de milhares de muçulmanos inflamados contra os judeus. Por isso, «passava a vida perdido, às voltas em florestas virtuais, florestas de palavras, cabanas de palavras, prados de palavras» (pág. 173) que haveriam de revelar-se anos mais tarde através dos muitos livros (em Portugal, na ASA, encontram-se publicados A Terceira Condição, Não Chames à Noite Noite, Uma Pantera na Cave, O Meu Michael e O Mesmo Mar) que foi escrevendo até chegar a esta História de Amor e Trevas, escrita sessenta anos depois numa pequena casa, em Arad, à beira do deserto do Neguev, onde Oz vive actualmente. Um livro «muito proustiano», carregado de «cheiros, sons, imagens que ajudaram a lembrar» – como confessou numa entrevista ao ípsilon de 9 de Março passado -,  arrancados às pedras de «uma Jerusalém estranha, silenciosa, modesta e velada, etíope, muçulmana, cidade de peregrinos, otomana, missionária, indiferente, a cidade dos cruzados, dos templários, grega, arménia, italiana, cheia de intrigas, anglicana, ortodoxa, monástica, copta, católica, luterana, escocesa, sunita, xiita, sufi, alauita, dominada pelo som dos sinos e o chamamento dos muezins, com os seus pinhais, aterradora e ao mesmo tempo fascinante com os seus feitiços sombrios, o labirinto das suas ruelas proibidas e hostis mergulhadas nas trevas, uma cidade secreta, maléfica, prenhe de catástrofe« (pág. 413), rasgada agora por um muro da vergonha que serpenteia entre ruas, quintais, vizinhos, amizades, desconfianças, medos, angústias, esperanças, como uma serpente venenosa destilando cada vez mais veneno, mais ódio entre dois povos atiçados por toda a espécie de radicalismos.

Um livro sobre a criação do estado de Israel, uma nação criada pela força: «Nesse tempo, não se preocupavam muito com o destino das centenas de milhar de deslocados e refugiados palestinianos, muitos dos quais fugiram ou foram expulsos das cidades e das aldeias conquistadas pelo exército israelita» (pág. 468). Mas, sobretudo, ainda, uma promessa não cumprida, tal como os seus pais fundadores, sionistas socialistas como David Ben Gourion a sonharam: «Agora, passados os anos da euforia, entrávamos de repente no dia seguinte: cinzento, apagado, obscuro, tacanho e mesquinho» (pág. 471). Um livro que é uma espécie de Requiem por Israel só possível de compreender quando regressamos com Oz a esse mundo de antes onde os judeus askenazitas deixaram um pedaço de si, num tempo em que os muros diziam «Judeus para a Palestina» e não se ouvia ainda o grito «Judeus fora da Palestina», inscrito no novo muro que serpenteia na paisagem bíblica, dividindo, espartilhando a «terra prometida» de árabes e judeus. Como foi possível chegar aqui, a esta muralha de ódio inútil separando judeus e palestinianos vivendo sob um mesmo céu sobre ruínas? Eis, talvez, a pergunta a que este livro procura dar resposta, na perspectiva de um israelita que defende «que acabar com a ocupação não só não enfraquece Israel como, pelo contrário, o fortalece. E que não é correcto ver em todo o lado apenas Shoah» (pág. 377). 

[Ler ainda em O Que Cai dos Dias os seguintes posts relacionados: Contra o fanatismo e Os cornos da actualidade].