Um bairro atópico e espiritual

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Os bairros residenciais proliferam. A sua territorialidade, a envolvência ambiental, os equipamentos sociais e culturais, bem como o nível de conforto condicionam e, geralmente, determinam o perfil social dos seus moradores. O Estado promove bairros sociais, os empresários constroem urbanizações de luxo ou prédios para contribuintes menos afortunados.

O bairro de G M T não se enquadra em nenhum padrão urbanístico singular, em nenhum critério ambientalista ou economicista. Não sabemos, sequer, se respeita qualquer PDM… O seu bairro teve uma preocupação óbvia – reunir intelectuais desinteressados de questões monetárias, pouco interessados, até, na maioria dos casos, na convivialidade. GMT vai reunindo moradores – escritores e artistas – tentando agrupá-los em torno de algumas supostas afinidades. Partilham a particularidade de apenas pertencerem ao mundo dos vivos pela vitalidade de uma memória que se expressa em múltiplos estudos académicos e em leituras acidentais.

Este bairro, o do sr. Tavares, não tem topografia provável e da sua temporalidade apenas deduzimos, por enquanto, que se situa algures no tempo da Modernidade e da Pós-modernidade. Dos seus  moradores compulsivos foi-nos apresentado um sucinto e enigmático B.I. onde consta um apelido e uma resenha de prováveis circunstâncias que revelam aos transeuntes e aos visitantes traços de carácter hilariantes.

Esperar-se-ia que GMT instalasse uma biblioteca pública no bairro (poderíamos surpreender os fantasmas dos habitantes do bairro, conversando sobre os seus livros), mas ele quis dificultar-nos o conhecimento de moradores tão peculiares, talvez com a intenção de suscitar uma curiosidade activa que levasse os vizinhos a penetrar no seu espaço intimista. E, então, sob pretexto de qualquer coisa como – ó vizinho, este gato é seu? – os restantes moradores poderiam passar os olhos pelas lombadas dos livros da biblioteca de cada um e pousá-los na secretária em busca de algo em construção. Então, as palavras fluiriam e seria desvendado o seu mundo e o seu quotidiano. Tomár um café com um, um absinto com outro…

Foi assim que a nossa comunidade de leitores, conhecida como Passos em volta, se aproximou deste bairro, visitando-o várias vezes e acabando por tutear com os senhores Bertolt Brecht, Roberto Juarroz, Paul Valéry, Henri Michaux, Robert Walser, Italo Calvino e Karl Kraus.

Temos trocado algumas ideias sobre este assunto, uma das nossas vizinhas ( já agora, cabe perguntar – onde estão as mulheres deste bairro?) já simulou uma reunião de condomínio que culminou com uma invasão à casa do pobre Walser. Tratando-se de uma convocatória posteriormente constestada por outro vizinho, e perante o caos iminente, decidimos convocar formalmente o sr. Tavares, o empresário/autor do bairro, para uma sessão de esclarecimento. Felizmente há luar porque a assembleia terá lugar ao ar livre, dada a falta de equipamentos culturais…

Maria da Graça Ventura

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Licores fortes

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Entretanto, ainda, o «Bairro». A taberna. O Senhor Henri. O absinto. O álcool como estímulo, fonte de inspiração literária. Pessoa bebendo um copo de aguardente no Abel Pereira da Fonseca. O vinho de Goethe. A tequilla de Malcolm Lowry. O whisky de José Cardoso Pires. «É preciso estar absolutamente bêbado», declarou Baudelaire. E Rimbaud que dizia «sobretudo, beber licores fortes como metal fundido». E Kafka que escreveu um Colóquio do Bêbado. Mas, hoje, parece, os escritores já não bebem. Já não se embriagam. Passam ao lado dos paraísos artificiais. E disso, ressente-se a literatura. Vai um copo de absinto? «Énivrez-vous!»

Próximo Encontro da Comunidade de Leitores Passos em Volta

PRÓXIMO ENCONTRO DA COMUNIDADE DE LEITORES PASSOS EM VOLTA

Local: Instituto de Cultura Ibero-Atlântica de Portimão, Largo Dr. Bastos nº13, Portimão – 6 de Setembro, 4ª feira, 21.30 horas.

Obra sugerida pela Comunidade:  

Uma História de Amor e Trevas,

de Amos Oz, Edições Asa

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Boas leituras!

Reunião de Condomínio

Compareceram todos à hora marcada. A sala de condomínio do bairro – havia uns que, gracejando, chamavam-lhe sala de bairromínio – ficava precisamente na praça central do bairro e assemelhava-se a um anfiteatro. Era uma sala pequena, pequena demais para tantos condóminos. À medida em que iam chegando, cumprimentavam-se cerimoniosamente entre si,  Boa noite Senhor Balsac, Boa noite Senhor Kraus, Boa noite Senhor … Todos se tratavam pelo apelido, todos se conheciam, todos sabiam onde moravam. Mas naquela noite ninguém sabia quem tinha marcado aquela reunião, nem a sua ordem de trabalhos. Todos haviam encontrado a carta na caixa do correio e todos tinham reparado que a carta não estava assinada. Apenas tinha data, local e hora. E acrescentava-se na última linha, urgente.

Os condóminos aconchegavam-se e apertavam-se entre si nos bancos corridos do anfiteatro. Tão perto dos ouvidos e das bocas uns dos outros, atreviam-se a perguntar:

– Mas afinal, quem marcou esta reunião? O que é que estamos aqui a fazer?

Alguém respondia:

– Estou totalmente desconfiado que isto só pode ser coisa de mulher, elas é que gostam de tramar coisas às nossas escondidas, estão sempre por aí a dizer que nós damos o nosso nome à história, mas que elas é que são as verdadeiras obreiras da nossa evolução. Por isso, isto …

– Concordo consigo, Senhor Elliot, isto é coisa da Senhora Bausch, a minha vizinha,  já lá no prédio é a mesma coisa … e receio bem que ainda vamos sair daqui em sapatilhas de pontas …

– Eu nunca quis vir morar para aqui, sempre achei este bairro com um ar duvidoso, tantos homens juntos … Agora estamos aqui à mercê de uma entidade misteriosa … Abomino a ideia de ser uma personagem, principal ou secundária, de uma trama que desconheço. Afinal, quem é o director desta película?

– Acalme-se Senhor Wells, a noite ainda agora começou e tudo haveremos  de saber.

A sala encheu-se por completo e todos sabiam que mais ninguém estaria para chegar.

Entretanto, alguém levantou-se e, olhando em volta, disse:

– Como seria de esperar, falta o Senhor Walser.

Todos se entreolharam. Alguém sugeriu que talvez a carta não tivesse chegado à casa dele, no meio daquela tão bonita floresta, vizinha do bairro. Quando o grupo de condóminos, tão apertados entre si, tão dispostos a dividir com o seu vizinho o reduzidíssimo espaço dos bancos corridos, ouviram falar de um condómino habitante e de uma casa – não de um prédio, não de um minúsculo apartamento engaiolado entre outros apartamentos, uns em cima, outros em baixo, outros à frente -, a terem de ser obrigados a cumprimentarem-se cerimoniosamente a todo o momento, em todas as ruas, em todas as esquinas, como um massacrante código de boa vizinhança, todos sentiram crescer entre todos, como um sentimento unificador dessa tão entranhada boa vizinhança, uma inveja na sua  forma mais primária e avassaladora. Permaneceram calados e enrubescidos por segundos, como que a cozerem nessa inveja, todo o resto dos puros sentimentos que ainda possuíam.

-Ah, uma casa na floresta, que magnífico! Será que o Senhor Walser não precisa de um caseiro? Basta-me um pequeno quartinho, aos fundos do quintal, desde que tenha vista para as árvores …

– Francamente, Senhor Pessoa, essa pureza visionária está decadente!

– Ouvi dizer que o Senhor Walser zomba de nós! Que a casa dele é só para ele viver, não quer lá nenhum daqueles incivilizados que moram naquele bairro, lá à frente, que a floresta é o seu santuário merecido, pois ele é um ser muito inteligente e a inteligência é um dom que tem de guardar só para ele. Contaram-me isto tudo lá na padaria.

– Sim, já me tinham contado. E diz que tem grandes expectativas! Vejam só! Expectativas de quê?

– Não percebo. Expectativas de quê? Alguém contou-me que ouviu dizer que a casa é perfeita. Uma obra de arquitectura divina. Uma espécie de jardim suspenso da antiguidade!

– Exactamente, e já ouvi dizert que não quer ninguém lá em casa, porque as visitas podem estragar o soalho de madeira, sujar as paredes com dedadas, podem gastar muita electricidade se o visitarem de noite, entre tantas outras mesquinhas preocupações.

– Ah, eu sempre suspeitei que ele fosse um petulante intelectual, fechado no emaranhado de árvores e arbustos como forma disfarçada de não se misturar com gente menor!

– Posto tudo isto, o que vamos fazer? Parece que já sabemos a razão desta reunião. Uma merecida lição ao Senhor Walser.

– Unidos venceremos o desdém!

– Sugiro que invadamos a sua tão perfeita casa! Lançaremos sobre toda a sua estutura a suspeita da imperfeição, os canos estarão rotos, o tecto terá um buraco pavoroso, a madeira do chão estará afinal mal colada, prestes a estoirar num instante, a instalação eléctrica prestes a provocar um incêndio, uma parede quase a ruir.

– Excelente ideia. A imperfeição mina a casa do Senhor Walser!

– Responsabilizo-me por contratar a equipa de estucadores, canalizadores, electricistas, carpinteiros, todos esses homens vão fazer uma especial companhia ao Senhor Walser. E apresentarei ao condomínio as despesas das obras!

Em uníssono, como sinal de um alívio colectivo, ouviu-se respirar  fundo em todos os condóminos. Vestígio de um acordo generalizado e de uma inveja satisfeita. O Senhor Walser ainda haveria de vir morar para o pé deles, pensaram todos ao abandonarem a sala do bairromínio, não sem antes se despedirem cerimoniosamente.

                                                                                                                                                   Texto de Maria do Rosário Cristóvão

                                                                                                                                                                                1 de Agosto de 2007