Um empreendimento urbanístico-literário

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«E se um dia um viajante» se perdesse num jardim de caminhos que se bifurcam levando a um bairro em cujas ruas e ruelas se encontrasse, sem que o soubessemos, a multiplicidade de possíveis que subtrairiam esse bairro a qualquer tentativa de controlo racional e normalizador da matéria literária? E quem melhor para habitar esse bairro do que os escritores que povoam o nosso imaginário de leitores? Até porque, por obra e graça do arquitecto-escritor desse «bairro», transformados aqueles escritores, assim, em personagens de uma estória que não escreveram, seriam eles, pela sua própria natureza de «personagens de papel», sem biografia, portanto, que não fosse a que é atribuída à sua nova condição ficcional, quem melhor poderia escapar à normalização de uma qualquer tentativa de historiografia literária.

À medida que se expande como um empreendimento literário-urbanístico que visa a dessacralização da figura do autor, o «Bairro» que Gonçalo M. Tavares [série Os Senhores, Caminho] vem projectando, construindo e povoando – sobretudo pela excentricidade dos condóminos que fomos encontrando nas sete moradias entretanto visitadas, cuja arquitectura recorre a um muito subtil mimetismo temático-estilístico dos seus condóminos com que GMT vai fugazmente retraçando figuras da sua recepção literária pessoal -, parece-me reinventar a possibilidade de multiplicação dos possíveis que escapam à coacção da figura do autor, fundando um novo «bairro literário» descentrado da historiagrafia literária estabilizadora.

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O Senhor Palomar do Senhor Calvino

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O Senhor Palomar era impaciente e alcançava encontrar resultados completos e definitivos para as suas indagações.

Não lhe bastava contemplar uma onda por contemplar, fruir unicamente da beleza dos seus movimentos, do seu marulho agradável. Era necessário compreender os «aspectos complexos que concorrem para a sua formação e aqueles outros, igualmente complexos a que essa mesma onda dá lugar». Se não fosse essa sua impaciência por alcançar resultados definitivos, «o observar das ondas seria para ele um exercício muito repousante  e poderia salvá-lo da neurose , do enfarte e da úlcera gástrica. E talvez pudesse ser essa a chave para dominar a complexidade do mundo, reduzindo-a ao seu mecanismo elementar».

O Senhor Palomar procurava controlar tudo, até as suas emoções/ sensações, pois por ser um «homem nervoso, vivendo num mundo frenético e congestionado», «tende a reduzir as suas relações pessoais com o mundo exterior para se defender da neurastia generalizada».  

É este o retrato do Senhor Palomar, homem nervoso, inseguro acerca de tudo, perturbado pela tensão de não possuir certezas em relação a nada. Um homem solitário, pouco sociável, extremamente reflexivo e racionalista, metódico, estabelecendo «para cada um dos seus actos um objectivo limitado e bem definido», melancólico e angustiado «porque o mundo que existe à sua volta se move de uma forma desarmónica e ele continua a esperar descobrir nele, um desígnio, uma constante». 

Esta é também a história do Senhor Palomar contada pelo Senhor Calvino.  O livro oferece ao leitor uma viagem pelos pensamentos de Palomar nas mais diversas situações quotidianas, observador incansável dos mistérios do mundo, entre um passeio na praia, o descanso no jardim e os percursos das cidades que visita. No entanto, todas as suas reflexões conduzem sempre a (in) conclusões, numa espécie de dialéctica infindável, perpetua e constante, dos seus pensamentos. Mediante as suas dúvidas, Palomar coloca hipóteses sempre refutáveis, sínteses para as quais existem sempre antíteses. Palomar nunca fica apenas pelas observações perceptivas, numa obsessão constante de «procurar uma saída (…) investir-se a si próprio nas coisas, reconhecer-se nos sinais, transformar o mundo num conjunto de símbolos; quase como um primeiro alvorecer da cultura na longa noite biológica». Esta necessidade de reconhecimento através dos sinais está também muito presente em As Cidades Invisíveis, do mesmo autor. Podemos dizer que Palomar é uma espécie de alter-ego de Calvino, reflectindo as inquietações de um homem pós-moderno, que busca permanentemente um fio condutor que una as múltiplas realidades fragmentadas; «Que alívio sentiria se pudesse anular o seu eu parcial e cheio de dúvidas na certeza de um princípio do qual tudo derivasse». À semelhança do gorila albino que Palomar vê no zoológico de Barcelona, exemplar único da sua espécie no mundo, que aperta contra o peito um pneu de automóvel, também ele «sente a necessidade de ter uma coisa que possa segurar contra si enquanto tudo lhe foge, uma coisa com a qual possa aplacar a angústia do isolamento, da diferença, da condenação de se ser sempre considerado um fenómeno vivo» pois «todos fazemos girar entre as nossas mãos um velho pneu vazio, através do qual pretenderíamos alcançar aquele sentimento último a que as palavras não chegam».          

A meu ver, o prazer que o leitor pode retirar deste livro, muito à semelhança de em «As cidades Invisíveis», baseia-se no encontro consigo próprio, na identificação de reflexões que já nos assaltaram o pensamento e de outras tantas para as quais a personagem nos remete, despertando-nos para o mundo em que vivemos, pormenores em que ainda não reparamos mas que se tornam evidentes após a leitura.  É um livro de ideias claras, muito bem expostas, de estrutura original e simples, com um leve tom humorístico. Os títulos dos capítulos e sub-capítulos recordam um célebre livro infantil; As férias de Palomar, Palomar na Cidade, Palomar na praia, Palomar no jardim, Palomar observa o céu, Palomar no terraço, Palomar vai às compras, etc… 

O Senhor Calvino e as Cidades Invisíveis

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Ao lermos «As Cidades Invisíveis» de Italo Calvino, deparamo-nos com transfigurações do real que tomam como ponto de partida múltiplas cidades, que espelham, ainda que ocultando, os desejos e anseios mais profundos  do ser humano, resultado da sua relação com os outros e, sobretudo, com o mundo que o rodeia.

Trata-se de uma obra repleta de metáforas, analogias, de simbolismo, de palavras que penetram nos labirintos da escrita levando a outros labirintos, conduzindo o leitor numa verdadeira travessia por cidades imaginárias, territórios que aprisionam e libertam desejos e sentimentos antagónicos, onde o maravilhoso é inexaurível.  Cidades que não se encontram em parte alguma mas que são todas as cidades onde estivemos, estando em todos os locais por onde passámos.

O leitor é remetido para as malhas da cidade, numa constante desterritorialização dos sentidos, mediante imagens caóticas sugeridas por pequenas narrativas fragmentadas e independentes, onde em cada uma é apresentada uma realidade, sempre em registo surreal. O livro é composto por 55 pequenos contos interligados pelos diálogos entre Marco Polo e Kublai Khan, correspondendo a 55 cidades fantásticas, todas com nomes femininos.

A história que serve de pretexto à obra baseia-se nos relatos de Polo ao imperador mongol sobre as cidades que visitara no império, uma vez que o imperador não pode abandonar a capital para as visitar. É sob este fundamento que Calvino traça o retrato destas cidades perdidas no tempo e no espaço, que «como os sonhos são construídas de desejos e de medos», cidades carregadas de surrealismo, onde se podem encontrar ruas pavimentadas a estanho, teatros de cristal, galos de ouro que cantam do alto de torres, mulheres banhando-se na piscina de um jardim; como «Zirma» onde «em cada arranha-céus há sempre alguém que enlouquece, todos os loucos passam horas horas nos terraços, não há puma que não seja criado por capricho de rapariga (…) dirigíveis voam em todos os sentidos à altura das janelas (…) comboios subterrâneos apinhados de mulheres obesas cheias de calor» ou «Melânia» onde «sempre que se entra na praça, fica-se no meio de um diálogo: o soldado fanfarrão e o parasita ao sair de uma porta deparam-se com o jovem perdulário e a meretriz; ou o pai avaro da solteira dá as últimas recomendações à filha apaixonada e é interrompido pelo servo palerma que vai levar um bilhete à alcoviteira», ou ainda «Eutrópia» (e gosto especialmente desta) onde «os habitantes se sentem atacados pelo cansaço, e já ninguém suporta o seu ofício, os parentes, a casa e a rua, as dívidas, a gente que deve cumprimentar ou que o cumprimenta, então todos os cidadãos decidem transferir-se para a cidade vizinha que está ali à espera, vazia e como nova, onde cada um tomará  outro ofício, outra mulher, verá outra paisagem ao abrir a janela, passará as noites com outros passatempos e maledicências. Assim a sua vida renova-se de mudança em mudança (…) de tal modo que no espaço de uma vida raramente se regressa a um ofício que já tenha sido o seu».

Muitas destas descrições trazem-me à memória o sentimento tão «ocidental» da poesia de Cesário Verde, resultado das suas deambulações pela cidade, tão industrial, soturna, insalubre e melancólica. Veja-se a narração de Kublai Khan a Marco Polo sobre uma cidade que lhe apareceu em sonhos: «O porto está exposto a setentrião, à sombra. As docas são altas acima do nível da água negra que bate contra as muralhas, e têm escadas de pedra escorregadias de algas. Botes untados de alcatrão esperam no cais de embarque os que vão partir, e que se demoram na ladeira a dizer adeus às famílias (…) da margem já não se distinguem os contornos; está nevoeiro» ou «Zemrude» onde «os nossos olhares prender-se-ão ao chão, aos regos de água, aos esgotos, às tripas de peixe, ao papel velho».   

Através de descrições fascinantes e oníricas, Calvino desperta-nos o desejo de conhecer melhor estes locais,  ler livros inteiros cuja trama se desenrole nestas cidades onde a magia predomina, como nas Mil e Uma Noites. É assim que o autor, como um arquitecto que projecta as cidades, enreda o leitor nas suas teias e jogos de palavras, construidos com a precisão geométrica de uma régua e esquadro, reflexões filosóficas que nos transportam para cidades, verdadeiro «zodíaco de fantasmas da mente».

«As Cidades Invisíveis» deixa transparecer um Italo Calvino para quem a subtileza dos pormenores e a procura de um sentido mediante o simbolismo que retira de todas as coisas é o caminho literário a percorrer, em direcção à construção de um significado mais profundo para o sentido de toda a existência.             

     

Workshop de Escrita Criativa com Gonçalo M. Tavares

WORKSHOP DE ESCRITA CRIATIVA COM GONÇALO M. TAVARES

Casa das Artes, Sala nº1, Portimão- 2 a 6 de Agosto, 21.00-23.00 horas

Organização: Associação Cultural e Pesquisa Teatral A Gaveta

Contactos para inscrições:

Email: a.c.agaveta@gmail.com

Tel. 96 5113372

II Encontro do Ciclo «Os Senhores de Gonçalo M. Tavares»

CICLO DA COMUNIDADE DE LEITORES PASSOS EM VOLTA

«OS SENHORES DE GONÇALO M. TAVARES»

Chocolataria Coffee Book- 31 de Julho, 21.30 horas 

Leituras sugeridas pela Comunidade de Leitores:

O Senhor Brecht

O Senhor Calvino

O Senhor Henri

O Senhor Juarroz

O Senhor Valery

O Senhor Walser

Até lá, bom passeio pelo Bairro!

O Senhor Tavares

O Senhor Tavares não gostava de viver sozinho. Vivia num bairro do qual dizia ser tão pequeno como o mundo. E explicava:

-Não há explicação para isto. Levanto-me de manhã e percorro a grande velocidade as ruas infinitas deste bairro e encontro-me sempre sobre as mesmas pedras de alcatrão. Já pensei em mandar pôr outras, mas elas são todas iguais, pequeninas, pretas e pegajosas.

O Senhor Tavares teve então uma ideia brilhante, num dia de chuva, vendo da janela da sua casa as pequeninas pedras de alcatrão escorrerem rua abaixo, a arrastarem-se pegajosas umas às outras e a todos aqueles restos indefinidos da civilização, jogada para o chão, a encherem desde os pés a nossa existência, a fazerem desde os pés uma estranha companhia. O Senhor Tavares ao olhar descobriu que não gostava daquela companhia.

O Senhor Tavares decidiu criar um mundo tão grande como um bairro. E deu-lhe o nome de bairro. Um mundo com nome de bairro. O seu mundo seria grande, não teria certamente pedras de alcatrão e teria sim os vizinhos que ele convidaria para lá viver.

Essa seria a parte mais difícil. Os vizinhos. O Senhor Tavares já tinha dito muitas vezes para si próprio que não gostava de viver sozinho.

Os vizinhos habitariam em prédios, construções com  alturas diversas, ao gosto de cada inquilino, conforme a vontade de ver o horizonte do mundo, uns habitariam o último andar, outros os andares intermédios, outros permaneceriam no rés-d-chão. Ao gosto.

O Senhor Tavares fez um desenho do seu bairro numa folha branca, dobrou-a e guardou-a no bolso da camiseira. No bolso mesmo por cima do coração. Encostou-se ao vidro da janela coberta por gotas de chuva e pôs-se à procura do sítio onde encontrar os vizinhos.

O bolso da camiseira pulava suavemente. O coração estava acelerado. O seu bairro estava vivo. Já tinha encontrado os seus vizinhos.

Tirou de dentro do coração uma lista jeitosa de nomes. Uns nomes eram rabiscados com uma certeza tão violenta que bastava a primeira inicial e o resto acabava num traço, outros nomes eram redigidos com uma dúvida tão forte que se demorava no encaracolado da sua caligrafia. O Senhor Tavares não gostava da dúvida. Tinha com a dúvida uma estranha relação, tudo dependia do domínio da dúvida sobre si próprio. Gostava de dominar a dúvida. Naquela vez, dominou-a rapidamente.

O primeiro vizinho a quem convidou foi o Senhor Valéry.

E o Senhor Valéry aceitou.

A primeira pergunta que o Senhor Valéry fez ao Senhor Tavares foi se seriam vizinhos no mesmo prédio. O Senhor Tavares disfarçou o sorriso, como quem disfarça um segredo, e por meias palavras respondeu que eram vizinhos no mesmo bairro. E levando-o pelo cotovelo, conduziu-o até à sua casa, um rés-do-chão, próprio para quem é pequenino, pois não teria que esforçar as pernas a subir escadas. O Senhor Valéry disfarçou mal o seu desagrado pela cínica simpatia do seu anfitrião, pois não era segredo que não gostava de ser pequenino. E não era segredo que gostava de dar saltos.

O que o Senhor Valéry não sabia era que o Senhor Tavares gostava secretamente dos saltos que ele dava. Por isso escolheu-o de dentro do seu coração.

– Gosto de o ver saltar entre os dois lados das coisas, querer ser perfeccionista e impôr à desordem do mundo a recta geométrica e dividi-lo entre o lado direito e esquerdo. Vou ver se também divide o meu mundo do tamanho de um bairro em dois lados. Mas talvez não saiba que o meu mundo do tamanho de um bairro não tem lados.

O Senhor Valery não gostava de chuva e como treinava muito em desviar-se dos pingos da chuva, chegou seco à sua casa, enquanto o Senhor Tavares apanhou sobre os ombros todos os pingos de chuva, deixando seco o chão por onde passara. Como um trilho.

– Senhor Tavares, este seu bairro causa-me um problema. Parece que a vida neste bairro ainda está por aparecer. Há uma serenidade original. Ainda não há tempo. E o espaço está apenas molhado.

– O Senhor Valéry é um senhor muito inteligente. Gosto de guardar pessoas inteligentes dentro do meu coração. Por isso, é o meu primeiro convidado. O meu primeiro habitante. A inteligência vai criar o tempo, o passado, o presente e o futuro. Assim começa a vida, como um jogo delirante entre os opostos, que se zangam, que se restauram. Que germinam outros opostos. O Senhor Valéry vai poder divertir-se entre a ordem geométrica e a geometria desordenada. À medida que isto vai discorrendo no tempo, outros vizinhos vão sendo convidados a habitar estas casasvazias.

O Senhor Valéry estava seriamente silencioso. Depois acrescentou, antes de entrar em casa:

– De facto, só há tristeza na diversidade se quisermos estar sozinhos. Como não me sinto completo comigo apenas, penso que tudo o que não sou eu me poderá completar, e portanto quero-o para mim, e roubo-o ao mundo. Na verdade, as ruas agarram-se aos meus sapatos porque eu não sou feliz.

– Então, Senhor Valéry, experimente ser feliz neste bairro, é por isso que ele existe. Com os outros vizinhos. Os meus amigos.

Texto escrito por Maria do Rosário Cristóvão

4 de Julho de 2007