Intertextualidades

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Não, este Senhor Walser apenas foi viver para uma casa no campo. Não ingressou, como o seu homónimo, num manicómio, embora devido à sua geografia labiríntica e à forma como a «normalidade» do exterior vem perturbar a interioridade «anormal» da casa que para ele representa a normalidade absoluta, talvez evoque, também, Herisau. Por isso, convoco para aqui um excerto da recensão sobre o último livro de Henrique Vila-Matas,  Doutor Pasavento, onde discorro sobre a ocultação e o desaparecimento de alguns autores.

(…) É que este romance-ensaio é também uma contínua reflexão sobre a loucura como forma de desaparecimento, sobre a relação entre a loucura e a criação artística e, como afirmou Canetti, como fuga possível para os escritores cansados de habitar esse circo de vaidades e vanidades que é muitas vezes a mundaneidade literária, confirmada por Pasavento ao afirmar que Robert Walser não estava louco, mas que simplesmente tinha decidido viver tranquilo no manicómio, imitando a mesma escolha dos supostamente loucos Holderlin, Nietzsche, Artaud que não o eram, mas sim excêntricos discursos literários que escolheram um modo de se comunicar pouco comum, mais lúcido provavelmente (pág. 181). O que é, então, o manicómio para Pasavento? Enquanto refúgio evoca a concepção de manicómio de Foucault como simulacro do mundo exterior e, ao mesmo tempo, do louco como autor consciente do seu próprio desaparecimento de um mundo irracional que tende a asfixiá-lo. Daí, o desejo de desaparecer, eclipsar-se para não ter que viver no meio das desesperantes intrigas do mundo literário (…).

A versão completa pode ser lida em A retórica do eclipse.

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Genealogias

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Estes Senhores parecem livros para crianças.  E são. Para as crianças que ocultamos em nós. Mas são mais do que isso se acreditarmos, como Paul Valéry, que «o infinito «é uma questão de escrita» e que «o universo só existe no papel». Em O Senhor Valéry talvez seja possível descortinar  uma genealogia de escritores e filósofos lidos pelo Valéry homónimo. Talvez Diderot, seguramente Wittgenstein, também lido pelo nosso Bernardo Soares de quem se aproxima através da «estética do movimento»; e, no outro lado do espelho, o ambiente fantasioso de Lewis Carroll.  Ao mesmo tempo invoca o cinegrafismo de Buster Keaton e a esperteza saloia de Jacques Tati. E, claro, Paul Valéry ele-mesmo, que se interrogava: «como não arredondar, colorir, procurar tornar [tudo] mais nítido, mais perturbador, mais íntimo? […] Em literatura o verdadeiro não é concebível».  Não é isso que procura também o Senhor Valéry? Em comum, todos nutrem uma certa desconfiança pela filosofia.

Walser à espera do dia seguinte

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Por analogia com o seu homónimo que procurava o desaparecimento, o eclipse, este Walser é mais dado ao recato que os primeiros povoadores do Bairro. Por isso, manda construir a sua casa «a uns bons quilómetros do bairro mais próximo», no que se assemelha ao Walser-outro, também ele instalado numa casa nos arredores de Herisau, durante vinte e oito anos, apenas saindo, aos domingos, para dar longos passeios no bosque circundante, com o seu amigo e editor Carl Seeling. Eis, agora, então, o Senhor Walser, na sua nova casa: «Mal se abre a porta de sua casa — sente ele — entra-se noutro mundo. Como se não fosse apenas um movimento físico no espaço — dois passos que se dão — mas também uma deslocação — bem mais intensa — no tempo. […] Quando fechava a porta atrás de si, Walser sentia virar as costas à inumana bestialidade (de que saíra, é certo, há biliões de anos atrás, um ser dotado de uma inteligência invulgar — esse construtor solitário que era o Homem) e entrar em cheio nos efeitos que essa ruptura entre a humanidade e a restante natureza provocara; uma casa no meio da floresta, eis uma conquista da racionalidade absoluta” (p. 13). Todo o seu mundo está agora ali dentro daquela casa, fora do mundo, onde a «racionalidade absoluta» tudo incorpora. Por isso, Walser, ao contrário dos outros senhores, não se enreda em pensamentos, em raciocínios que desembocam quase sempre no absurdo. E a sua ingenuidade não o leva a agir, mesmo quando o mundo exterior invade a sua casa contra a «racionalidade absoluta» ou por causa dela. Mesmo nessa situação, limita-se a esperar e a ter expectativas. «Não estou aqui para escrever, mas para enlouquecer», escreveu Robert Walser no mais curto micrograma de sempre. «Não estou aqui para agir, mas para ter expectativas», escreveria o Senhor Walser se fosse dado à escrita.

Um livro de Robert Walser para confrontar com o Senhor homónimo:  Jakob von Gunten: um diário. Lisboa: Relógio d´Água, 2005.

Entar num site sobre Robert Walter na Biblioteca de areia.

Um bairro desenhado a lápis

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O escritor suisso Roberto Walser, não o Senhor Walser de Gonçalo Tavares, mas o homónimo verdadeiro que vivia, não numa casa nos arredores do Bairro, mas num manicómio nos arredores de Herisau onde se refugiou voluntariamente, escrevia a lápis porque, segundo ele, essa era a forma que estava mais próxima do desaparecimento, do eclipse. E, ao contrário do Senhor Walser, não procurava companhia, antes a ocultação sob o traço minúsculo do carvão. E o que escondem, ou revelam, os traços dos desenhos a lápis que povoam o Bairro de Gonçalo M. Tavares? Talvez o seguinte, nas palavras de Rachel Caiano, ilustradora dos sete senhores que até ao momento vão habitando o Bairro:

«Assim: O Senhor Valéry tem um traço grosso e um pouco ingénuo. O Senhor Henri um traço enciclopédico. O Senhor Brecht consegue encher uma sala de espectadores numa sequência em movimento. O Senhor Calvino quer sublinhar a ideia de percurso, de caminho. O Senhor Juarroz tem um registo mais infantil. O Senhor Kraus está cheio de nuances, cinzas e volumes meio humanos meio geométricos e ameaçadores. O Senhor Walser tem um pensamento muito circular e leve e assim também as ilustrações».­ Pistas a lápis para melhor podermos visitar o Bairro?  Talvez.

No território do lápis

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Herisau, dia de Natal de 1956. Um homem jaz no chão, confundindo-se com o mar branco que o cerca. A neve é o mais perfeito esconderijo. Antes errara durante horas até ao coração do bosque, perdido. Ao longe, talvez, o toque de um sino chamando. A cabeça está apoiada sobre a raíz de uma árvore que emerge da neve. Não há tristeza no seu rosto. Apenas uma réstia do último olhar encandeado pelo brilho da neve, com o espanto de quem descobre, finalmente, o mais secreto dos desejos. Daqui a pouco, um grupo de crianças encontrará um corpo num bosque gelado e saberemos tratar-se de Robert Walser, o «poeta mais escondido que alguma vez existiu», como escreveu Elias Canetti (…)

[ler texto integral sobre Robert Walser em No território do lápis]

O Bairro de Gonçalo M. Tavares

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O Senhor Walser é o mais recente inquilino do Bairro que Gonçalves M. Tavares vem povoando, correspondendo a um programa de «alojamento» ficcional de contornos lúdicos com avatares filosóficos de escritores famosos. Trata-se agora da saga doméstica do Senhor Walser, numa clara evocação do escritor suiço Roberto Walser que cultivou um estilo de vida e uma escrita que visava a ocultação. Tal como Robert Walser, que passou os últimos vinte e oito anos da sua vida no manicómio de Herisau, junto à floresta de Appenzel, também o senhor desta história procura ocultar-se numa casa no meio da floresta, onde espera criar um espaço de «conquista da racionalidade absoluta» contra o caos circundante. Contudo, ironicamente, o caos acabará por se inflitrar no interior da habitação levado pelos trabalhaores que no dia da inauguração da casa, supostamente, viriam pôr tudo em ordem.

Ciclo Comunidade de Leitores Passos em Volta- «Os Senhores de Gonçalo Tavares»

Chocolataria Coffee Book – 5 de Julho, 21:30 horas  

CICLO COMUNIDADE DE LEITORES PASSOS EM VOLTA

Os Senhores de Gonçalo Tavares

Leituras sugeridas pela Comunidade de Leitores:

Gonçalo Tavares 

O Senhor Brecht

O Senhor Calvino

O Senhor Henri

O Senhor Juarroz

O Senhor Valery

O Senhor Walser

Até lá, boas leituras!