Próximas Leituras da Comunidade de Leitores Passos em Volta

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A ETERNIDADE  E O DESEJO

INÊS PEDROSA

O novo romance de Inês Pedrosa, A Eternidade e o Desejo, explora o Brasil moderno em diálogo com a vida amorosa do jesuíta do século XVII, Padre António Vieira, um mestre canónico da literatura portuguesa. A autora de Fazes-me falta, romance que vendeu mais de 100 mil exemplares, revisita os lugares percorridos pelo padre em terras de Vera Cruz, pela mão de Clara e Sebastião. A protagonista, historiadora e professora universitária, regressa à Bahia, onde em tempos perdeu a visão e um amor, sempre guiada pela luz dos textos de Vieira. O amor por outro António «devorou-lhe» os olhos. O amor por este António ensinou-lhe a virtude pela independência.

A Eternidade e o Desejo mistura fragmentos de sermões do Padre António Vieira com a narrativa de um outro encontro de uma apaixonada portuguesa pela obra do escritor e missionário. Um diálogo com que Inês Pedrosa pretende homenagear e ressuscitar a obra de Vieira.

«Vieira não foi apenas nem sobretudo um padre. Foi um magistral escritor e orador, um pioneiro dos direitos humanos e um bom diplomata, embora nem sempre acertasse nas causas e nos apoios (…) Era um voluntário da ingenuidade, como costumam ser as pessoas que nascem com a mania de melhorar o mundo.»

Boas Leituras! 

Uma judia de Lisboa

 

«Andei a passear com a Miriam Tívon [tradutora de Saramago] nas ruas com o nome dos profetas, naquela Jerusalém dos comerciantes que ainda conheci [nos anos 60] e isso ficou para sempre. É uma Israel que já não existe», conta em entrevista ao Público, Lúcia Liba Mucznik, a tradutora do livro de Amos Oz que reconhece na História de Amor e Trevas, também, um pouco da sua própria história. Também o pai nasceu na mesma Europa de Oz, na Galicia, Polónia, no seio de uma comunidade ultra-ortodoxa. E a mãe em Varsóvia.  A família veio para Portugal no início do século XX, tendo o avô paterno instalado uma loja de instrumentos musicais na Rua da Madalena, à frente da qual ficou o pai de Lúcia, enquanto o avô partia para Israel, em 1931, «porque era sionista, e activo, aventuroso». A história da família do pai é mais sinuosa e retrata a fuga aos pogroms que se abatiam sobre os judeus polacos. Foi assim que viajaram até Lisboa, de comboio. Os que ficaram na Polónia «morreram quase todos na guerra».

Lúcia lembra-se da mãe cozinhar todas as sextas-feiras o mesmo peixe de que fala Oz no livro; das velas que se acendiam no shabat; de falar-se em casa polaco e iídiche quando os pais não queriam que os filhos percebessem a conversa; e, depois, tal como Oz, aos 13 anos, de trabalhar  num kibutz, perto de Jerusalém. Nunca foi aos territórios ocupados, embora gostasse de ter ido. Lúcia, agora, vive em Portugal, embora gostasse de viver em Israel, apesar de não apoiar tudo o que lá se passa.

E não duvida que este livro de Oz é o livro da utopia judaica que «sonhava com Israel no tempo em que não havia Israel e agora sonha com a Europa».

Lúcia Liba Mucznik vem à comunidade de leitores dia 13 de Outubro. Para nos confrontar com as nossas convicções.

A insustentável objectividade de Amos Oz

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E como classificar esta História de Amor e Trevas? Um livro «muito proustiano», carregado de «cheiros, sons, imagens que ajudaram a lembrar» - como disse Amos Oz numa entrevista ao Ípsilon, em 9 de Março passado -, arrancados às pedras de Jerusalém. Curiosamente, também a tradutora do livro para português, Lúcia Liba Mucznik - uma judia askenazita que vive há muito em Portugal - andou a «passear nas ruas com o nome dos profetas, naquela Jerusalém dos comerciantes», o que torna a versão portuguesa deste romance duplamente autobiográfica, pois autor e tradutora partilham o mesmo sentimento de continuidade face à residualidade dos lugares. Até porque a memória é sempre residual, acolhe-se nos lugares, nos vestígios que Oz involuntariamente vai exumando contra o esquecimento, como a «madalena de Proust». Por isso este romance autobiográfico, uma «mémoire» como o classifica o próprio Oz, não pode ser neutro relativamente à matéria que narra. A sua insustentável objectividade decorre desde logo do facto do autor se encontrar marcado pela afecção da sua experiência posterior – o livro é escrito quase cinquenta anos depois dos acontecimentos centrais que narra -, o que lhe impôs naturalmente o exercício do juízo e da tomada de posição face ao vivido no passado. Ora é justamente essa subjectivação do discurso autobiográfico que confere autenticidade a uma História, narrada segundo a perspectiva da posição adoptada pelo autor. Sendo que a posição aqui é a de alguém que não se constitui como um narrador indiferente, mas como um protagonista empenhado em construir uma versão empenhada do sionismo. Diminuirá isto o livro? Claro que não. Antes oferece aos leitores a perspectiva de um israelita que encarnando a velha utopia sionista dos askenazitas fundadores de Israel gostaria de viver numa terra habitada por dois povos, como prova o seu posicionamento crítico no movimento Peace Now que ajudou a criar. Mas falhada por várias vezes a ocasião de paz, é a catástrofe que vai serpenteando nessa «terra prometida», agora sob a forma de uma muralha de ódio. Poderá este livro, que foi muito bem recebido em Israel, contribuir para quebrar a solidão irredutível dos dois povos? Até porque - e no livro isso percebe-se bem - os judeus jamais quererão regressar à sua condição de párias errantes num mundo que os repudiou e os palestinianos jamais abandonarão a sua terra mesmo que ela se vá tornando cada vez mais numa prisão de altos muros. Esta a insustentável objectividade Oz. E a nossa?

Requiem, de Amos Oz

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No bairro de Kerem Avraham, em Jerusalém, onde Amos Oz cresceu, muitos eram tolstoianos invertebrados, «barbas brancas ao vento», «tolstoischkis» caídos de um romance de Dostoievsky: «torturados, faladores […], idealistas atormentados, mas todos trabalhavam efectivamente para Checov» (pág. 9). Eram funcionários, escritores, enfermeiras, utopistas, tradutores, pequenos comerciantes, bibliotecários, empregados de escritório, ideólogos, logistas, intelectuais constrangidos a executar trabalhos ingratos e vivendo no despojamento e com a paixão do estudo, velhos solitários que sobreviviam com magras economias… Quando a noite caía, as portadas das janelas eram fechadas, as portas eram trancadas e apenas a reverberação do luar derramava uma morna luminosidade nas ruas desertas. Havia também os pioneiros que viviam para lá dos montes escuros de Jerusalém, na Galileia, no Sharon, nos desertos das margens do Mar Morto, nas planícies costeiras; e «era lá que do miserável pó se fazia uma nação combatente» (pág. 11). E havia ainda Telavive, «cidade efervescente» cheirando a maresia, «como um projecto secreto e vital do povo judeu»(pág. 13). , onde havia mesmo «judeus bronzeados que sabiam nadar. Quem em Jerusalém sabia nadar?» (pág. 11). Ninguém. Seguramente não o sabiam aqueles tolstoianos e dostoievkianos que, refugiados em habitações minúsculas, discutiam num hebraico hesitante o destino de Israel, mas sonhavam ainda num iídiche que lhes recordava os tempos sombrios de um qualquer «shtetl» na Polónia, na Rússia ou na Roménia, onde imaginaram uma terra para lá do horizonte, «no outro lado do rio e da floresta, para onde deveriam partir em breve porque o tempo dos Judeus na Europa estava contado». Vinham cuspidos de uma Europa que os tratava como cidadãos de segunda, escapando aos pogroms primeiro, a Hitler depois e a Estaline mais tarde - um passado cheio de cadáveres - , à procura de uma terra prometida que «não existia e que talvez nunca tenha existido, a não ser [nos] sonhos de juventude»(pág. 332). Mas era para Odessa, para Vilnius, para Rovno que sempre viravam o olhar, como se aí se encontrasse a verdadeira «terra prometida e proibida, o lugar nostálgico dos campanários e das velhas praças empedradas, dos elécticos, das pontes e das torres das catedrais, das aldeias isoladas, das fontes termais, das florestas e dos prados cobertos de neve» (pág. 7). 

Nesse tempo, o pequeno Amos «queria ser um livro quando fosse grande. Não um escritor, mas um livro. Por medo» (pág. 365). Medo dos tanques de Rommel que ameaçavam Israel. Medo que os britânicos não quisessem partir. E medo do aconteceria depois da sua partida, entregues à sede de vingança de milhares de muçulmanos inflamados contra os judeus. Por isso, «passava a vida perdido, às voltas em florestas virtuais, florestas de palavras, cabanas de palavras, prados de palavras» (pág. 173) que haveriam de revelar-se anos mais tarde através dos muitos livros (em Portugal, na ASA, encontram-se publicados A Terceira Condição, Não Chames à Noite Noite, Uma Pantera na Cave, O Meu Michael e O Mesmo Mar) que foi escrevendo até chegar a esta História de Amor e Trevas, escrita sessenta anos depois numa pequena casa, em Arad, à beira do deserto do Neguev, onde Oz vive actualmente. Um livro «muito proustiano», carregado de «cheiros, sons, imagens que ajudaram a lembrar» - como confessou numa entrevista ao ípsilon de 9 de Março passado -,  arrancados às pedras de «uma Jerusalém estranha, silenciosa, modesta e velada, etíope, muçulmana, cidade de peregrinos, otomana, missionária, indiferente, a cidade dos cruzados, dos templários, grega, arménia, italiana, cheia de intrigas, anglicana, ortodoxa, monástica, copta, católica, luterana, escocesa, sunita, xiita, sufi, alauita, dominada pelo som dos sinos e o chamamento dos muezins, com os seus pinhais, aterradora e ao mesmo tempo fascinante com os seus feitiços sombrios, o labirinto das suas ruelas proibidas e hostis mergulhadas nas trevas, uma cidade secreta, maléfica, prenhe de catástrofe« (pág. 413), rasgada agora por um muro da vergonha que serpenteia entre ruas, quintais, vizinhos, amizades, desconfianças, medos, angústias, esperanças, como uma serpente venenosa destilando cada vez mais veneno, mais ódio entre dois povos atiçados por toda a espécie de radicalismos.

Um livro sobre a criação do estado de Israel, uma nação criada pela força: «Nesse tempo, não se preocupavam muito com o destino das centenas de milhar de deslocados e refugiados palestinianos, muitos dos quais fugiram ou foram expulsos das cidades e das aldeias conquistadas pelo exército israelita» (pág. 468). Mas, sobretudo, ainda, uma promessa não cumprida, tal como os seus pais fundadores, sionistas socialistas como David Ben Gourion a sonharam: «Agora, passados os anos da euforia, entrávamos de repente no dia seguinte: cinzento, apagado, obscuro, tacanho e mesquinho» (pág. 471). Um livro que é uma espécie de Requiem por Israel só possível de compreender quando regressamos com Oz a esse mundo de antes onde os judeus askenazitas deixaram um pedaço de si, num tempo em que os muros diziam «Judeus para a Palestina» e não se ouvia ainda o grito «Judeus fora da Palestina», inscrito no novo muro que serpenteia na paisagem bíblica, dividindo, espartilhando a «terra prometida» de árabes e judeus. Como foi possível chegar aqui, a esta muralha de ódio inútil separando judeus e palestinianos vivendo sob um mesmo céu sobre ruínas? Eis, talvez, a pergunta a que este livro procura dar resposta, na perspectiva de um israelita que defende «que acabar com a ocupação não só não enfraquece Israel como, pelo contrário, o fortalece. E que não é correcto ver em todo o lado apenas Shoah» (pág. 377). 

[Ler ainda em O Que Cai dos Dias os seguintes posts relacionados: Contra o fanatismo e Os cornos da actualidade].

Um bairro atópico e espiritual

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Os bairros residenciais proliferam. A sua territorialidade, a envolvência ambiental, os equipamentos sociais e culturais, bem como o nível de conforto condicionam e, geralmente, determinam o perfil social dos seus moradores. O Estado promove bairros sociais, os empresários constroem urbanizações de luxo ou prédios para contribuintes menos afortunados.

O bairro de G M T não se enquadra em nenhum padrão urbanístico singular, em nenhum critério ambientalista ou economicista. Não sabemos, sequer, se respeita qualquer PDM… O seu bairro teve uma preocupação óbvia – reunir intelectuais desinteressados de questões monetárias, pouco interessados, até, na maioria dos casos, na convivialidade. GMT vai reunindo moradores – escritores e artistas – tentando agrupá-los em torno de algumas supostas afinidades. Partilham a particularidade de apenas pertencerem ao mundo dos vivos pela vitalidade de uma memória que se expressa em múltiplos estudos académicos e em leituras acidentais.

Este bairro, o do sr. Tavares, não tem topografia provável e da sua temporalidade apenas deduzimos, por enquanto, que se situa algures no tempo da Modernidade e da Pós-modernidade. Dos seus  moradores compulsivos foi-nos apresentado um sucinto e enigmático B.I. onde consta um apelido e uma resenha de prováveis circunstâncias que revelam aos transeuntes e aos visitantes traços de carácter hilariantes.

Esperar-se-ia que GMT instalasse uma biblioteca pública no bairro (poderíamos surpreender os fantasmas dos habitantes do bairro, conversando sobre os seus livros), mas ele quis dificultar-nos o conhecimento de moradores tão peculiares, talvez com a intenção de suscitar uma curiosidade activa que levasse os vizinhos a penetrar no seu espaço intimista. E, então, sob pretexto de qualquer coisa como – ó vizinho, este gato é seu? – os restantes moradores poderiam passar os olhos pelas lombadas dos livros da biblioteca de cada um e pousá-los na secretária em busca de algo em construção. Então, as palavras fluiriam e seria desvendado o seu mundo e o seu quotidiano. Tomár um café com um, um absinto com outro…

Foi assim que a nossa comunidade de leitores, conhecida como Passos em volta, se aproximou deste bairro, visitando-o várias vezes e acabando por tutear com os senhores Bertolt Brecht, Roberto Juarroz, Paul Valéry, Henri Michaux, Robert Walser, Italo Calvino e Karl Kraus.

Temos trocado algumas ideias sobre este assunto, uma das nossas vizinhas ( já agora, cabe perguntar – onde estão as mulheres deste bairro?) já simulou uma reunião de condomínio que culminou com uma invasão à casa do pobre Walser. Tratando-se de uma convocatória posteriormente constestada por outro vizinho, e perante o caos iminente, decidimos convocar formalmente o sr. Tavares, o empresário/autor do bairro, para uma sessão de esclarecimento. Felizmente há luar porque a assembleia terá lugar ao ar livre, dada a falta de equipamentos culturais…

Maria da Graça Ventura

Licores fortes

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Entretanto, ainda, o «Bairro». A taberna. O Senhor Henri. O absinto. O álcool como estímulo, fonte de inspiração literária. Pessoa bebendo um copo de aguardente no Abel Pereira da Fonseca. O vinho de Goethe. A tequilla de Malcolm Lowry. O whisky de José Cardoso Pires. «É preciso estar absolutamente bêbado», declarou Baudelaire. E Rimbaud que dizia «sobretudo, beber licores fortes como metal fundido». E Kafka que escreveu um Colóquio do Bêbado. Mas, hoje, parece, os escritores já não bebem. Já não se embriagam. Passam ao lado dos paraísos artificiais. E disso, ressente-se a literatura. Vai um copo de absinto? «Énivrez-vous!»

Próximo Encontro da Comunidade de Leitores Passos em Volta

PRÓXIMO ENCONTRO DA COMUNIDADE DE LEITORES PASSOS EM VOLTA

Local: Instituto de Cultura Ibero-Atlântica de Portimão, Largo Dr. Bastos nº13, Portimão - 6 de Setembro, 4ª feira, 21.30 horas.

Obra sugerida pela Comunidade:  

Uma História de Amor e Trevas,

de Amos Oz, Edições Asa

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Boas leituras!

Reunião de Condomínio

Compareceram todos à hora marcada. A sala de condomínio do bairro – havia uns que, gracejando, chamavam-lhe sala de bairromínio – ficava precisamente na praça central do bairro e assemelhava-se a um anfiteatro. Era uma sala pequena, pequena demais para tantos condóminos. À medida em que iam chegando, cumprimentavam-se cerimoniosamente entre si,  Boa noite Senhor Balsac, Boa noite Senhor Kraus, Boa noite Senhor … Todos se tratavam pelo apelido, todos se conheciam, todos sabiam onde moravam. Mas naquela noite ninguém sabia quem tinha marcado aquela reunião, nem a sua ordem de trabalhos. Todos haviam encontrado a carta na caixa do correio e todos tinham reparado que a carta não estava assinada. Apenas tinha data, local e hora. E acrescentava-se na última linha, urgente.

Os condóminos aconchegavam-se e apertavam-se entre si nos bancos corridos do anfiteatro. Tão perto dos ouvidos e das bocas uns dos outros, atreviam-se a perguntar:

- Mas afinal, quem marcou esta reunião? O que é que estamos aqui a fazer?

Alguém respondia:

- Estou totalmente desconfiado que isto só pode ser coisa de mulher, elas é que gostam de tramar coisas às nossas escondidas, estão sempre por aí a dizer que nós damos o nosso nome à história, mas que elas é que são as verdadeiras obreiras da nossa evolução. Por isso, isto …

- Concordo consigo, Senhor Elliot, isto é coisa da Senhora Bausch, a minha vizinha,  já lá no prédio é a mesma coisa … e receio bem que ainda vamos sair daqui em sapatilhas de pontas …

- Eu nunca quis vir morar para aqui, sempre achei este bairro com um ar duvidoso, tantos homens juntos … Agora estamos aqui à mercê de uma entidade misteriosa … Abomino a ideia de ser uma personagem, principal ou secundária, de uma trama que desconheço. Afinal, quem é o director desta película?

- Acalme-se Senhor Wells, a noite ainda agora começou e tudo haveremos  de saber.

A sala encheu-se por completo e todos sabiam que mais ninguém estaria para chegar.

Entretanto, alguém levantou-se e, olhando em volta, disse:

- Como seria de esperar, falta o Senhor Walser.

Todos se entreolharam. Alguém sugeriu que talvez a carta não tivesse chegado à casa dele, no meio daquela tão bonita floresta, vizinha do bairro. Quando o grupo de condóminos, tão apertados entre si, tão dispostos a dividir com o seu vizinho o reduzidíssimo espaço dos bancos corridos, ouviram falar de um condómino habitante e de uma casa – não de um prédio, não de um minúsculo apartamento engaiolado entre outros apartamentos, uns em cima, outros em baixo, outros à frente -, a terem de ser obrigados a cumprimentarem-se cerimoniosamente a todo o momento, em todas as ruas, em todas as esquinas, como um massacrante código de boa vizinhança, todos sentiram crescer entre todos, como um sentimento unificador dessa tão entranhada boa vizinhança, uma inveja na sua  forma mais primária e avassaladora. Permaneceram calados e enrubescidos por segundos, como que a cozerem nessa inveja, todo o resto dos puros sentimentos que ainda possuíam.

-Ah, uma casa na floresta, que magnífico! Será que o Senhor Walser não precisa de um caseiro? Basta-me um pequeno quartinho, aos fundos do quintal, desde que tenha vista para as árvores …

- Francamente, Senhor Pessoa, essa pureza visionária está decadente!

- Ouvi dizer que o Senhor Walser zomba de nós! Que a casa dele é só para ele viver, não quer lá nenhum daqueles incivilizados que moram naquele bairro, lá à frente, que a floresta é o seu santuário merecido, pois ele é um ser muito inteligente e a inteligência é um dom que tem de guardar só para ele. Contaram-me isto tudo lá na padaria.

- Sim, já me tinham contado. E diz que tem grandes expectativas! Vejam só! Expectativas de quê?

- Não percebo. Expectativas de quê? Alguém contou-me que ouviu dizer que a casa é perfeita. Uma obra de arquitectura divina. Uma espécie de jardim suspenso da antiguidade!

- Exactamente, e já ouvi dizert que não quer ninguém lá em casa, porque as visitas podem estragar o soalho de madeira, sujar as paredes com dedadas, podem gastar muita electricidade se o visitarem de noite, entre tantas outras mesquinhas preocupações.

- Ah, eu sempre suspeitei que ele fosse um petulante intelectual, fechado no emaranhado de árvores e arbustos como forma disfarçada de não se misturar com gente menor!

- Posto tudo isto, o que vamos fazer? Parece que já sabemos a razão desta reunião. Uma merecida lição ao Senhor Walser.

- Unidos venceremos o desdém!

- Sugiro que invadamos a sua tão perfeita casa! Lançaremos sobre toda a sua estutura a suspeita da imperfeição, os canos estarão rotos, o tecto terá um buraco pavoroso, a madeira do chão estará afinal mal colada, prestes a estoirar num instante, a instalação eléctrica prestes a provocar um incêndio, uma parede quase a ruir.

- Excelente ideia. A imperfeição mina a casa do Senhor Walser!

- Responsabilizo-me por contratar a equipa de estucadores, canalizadores, electricistas, carpinteiros, todos esses homens vão fazer uma especial companhia ao Senhor Walser. E apresentarei ao condomínio as despesas das obras!

Em uníssono, como sinal de um alívio colectivo, ouviu-se respirar  fundo em todos os condóminos. Vestígio de um acordo generalizado e de uma inveja satisfeita. O Senhor Walser ainda haveria de vir morar para o pé deles, pensaram todos ao abandonarem a sala do bairromínio, não sem antes se despedirem cerimoniosamente.

                                                                                                                                                   Texto de Maria do Rosário Cristóvão

                                                                                                                                                                                1 de Agosto de 2007

Um empreendimento urbanístico-literário

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«E se um dia um viajante» se perdesse num jardim de caminhos que se bifurcam levando a um bairro em cujas ruas e ruelas se encontrasse, sem que o soubessemos, a multiplicidade de possíveis que subtrairiam esse bairro a qualquer tentativa de controlo racional e normalizador da matéria literária? E quem melhor para habitar esse bairro do que os escritores que povoam o nosso imaginário de leitores? Até porque, por obra e graça do arquitecto-escritor desse «bairro», transformados aqueles escritores, assim, em personagens de uma estória que não escreveram, seriam eles, pela sua própria natureza de «personagens de papel», sem biografia, portanto, que não fosse a que é atribuída à sua nova condição ficcional, quem melhor poderia escapar à normalização de uma qualquer tentativa de historiografia literária.

À medida que se expande como um empreendimento literário-urbanístico que visa a dessacralização da figura do autor, o «Bairro» que Gonçalo M. Tavares [série Os Senhores, Caminho] vem projectando, construindo e povoando - sobretudo pela excentricidade dos condóminos que fomos encontrando nas sete moradias entretanto visitadas, cuja arquitectura recorre a um muito subtil mimetismo temático-estilístico dos seus condóminos com que GMT vai fugazmente retraçando figuras da sua recepção literária pessoal -, parece-me reinventar a possibilidade de multiplicação dos possíveis que escapam à coacção da figura do autor, fundando um novo «bairro literário» descentrado da historiagrafia literária estabilizadora.

O Senhor Palomar do Senhor Calvino

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O Senhor Palomar era impaciente e alcançava encontrar resultados completos e definitivos para as suas indagações.

Não lhe bastava contemplar uma onda por contemplar, fruir unicamente da beleza dos seus movimentos, do seu marulho agradável. Era necessário compreender os «aspectos complexos que concorrem para a sua formação e aqueles outros, igualmente complexos a que essa mesma onda dá lugar». Se não fosse essa sua impaciência por alcançar resultados definitivos, «o observar das ondas seria para ele um exercício muito repousante  e poderia salvá-lo da neurose , do enfarte e da úlcera gástrica. E talvez pudesse ser essa a chave para dominar a complexidade do mundo, reduzindo-a ao seu mecanismo elementar».

O Senhor Palomar procurava controlar tudo, até as suas emoções/ sensações, pois por ser um «homem nervoso, vivendo num mundo frenético e congestionado», «tende a reduzir as suas relações pessoais com o mundo exterior para se defender da neurastia generalizada».  

É este o retrato do Senhor Palomar, homem nervoso, inseguro acerca de tudo, perturbado pela tensão de não possuir certezas em relação a nada. Um homem solitário, pouco sociável, extremamente reflexivo e racionalista, metódico, estabelecendo «para cada um dos seus actos um objectivo limitado e bem definido», melancólico e angustiado «porque o mundo que existe à sua volta se move de uma forma desarmónica e ele continua a esperar descobrir nele, um desígnio, uma constante». 

Esta é também a história do Senhor Palomar contada pelo Senhor Calvino.  O livro oferece ao leitor uma viagem pelos pensamentos de Palomar nas mais diversas situações quotidianas, observador incansável dos mistérios do mundo, entre um passeio na praia, o descanso no jardim e os percursos das cidades que visita. No entanto, todas as suas reflexões conduzem sempre a (in) conclusões, numa espécie de dialéctica infindável, perpetua e constante, dos seus pensamentos. Mediante as suas dúvidas, Palomar coloca hipóteses sempre refutáveis, sínteses para as quais existem sempre antíteses. Palomar nunca fica apenas pelas observações perceptivas, numa obsessão constante de «procurar uma saída (…) investir-se a si próprio nas coisas, reconhecer-se nos sinais, transformar o mundo num conjunto de símbolos; quase como um primeiro alvorecer da cultura na longa noite biológica». Esta necessidade de reconhecimento através dos sinais está também muito presente em As Cidades Invisíveis, do mesmo autor. Podemos dizer que Palomar é uma espécie de alter-ego de Calvino, reflectindo as inquietações de um homem pós-moderno, que busca permanentemente um fio condutor que una as múltiplas realidades fragmentadas; «Que alívio sentiria se pudesse anular o seu eu parcial e cheio de dúvidas na certeza de um princípio do qual tudo derivasse». À semelhança do gorila albino que Palomar vê no zoológico de Barcelona, exemplar único da sua espécie no mundo, que aperta contra o peito um pneu de automóvel, também ele «sente a necessidade de ter uma coisa que possa segurar contra si enquanto tudo lhe foge, uma coisa com a qual possa aplacar a angústia do isolamento, da diferença, da condenação de se ser sempre considerado um fenómeno vivo» pois «todos fazemos girar entre as nossas mãos um velho pneu vazio, através do qual pretenderíamos alcançar aquele sentimento último a que as palavras não chegam».          

A meu ver, o prazer que o leitor pode retirar deste livro, muito à semelhança de em «As cidades Invisíveis», baseia-se no encontro consigo próprio, na identificação de reflexões que já nos assaltaram o pensamento e de outras tantas para as quais a personagem nos remete, despertando-nos para o mundo em que vivemos, pormenores em que ainda não reparamos mas que se tornam evidentes após a leitura.  É um livro de ideias claras, muito bem expostas, de estrutura original e simples, com um leve tom humorístico. Os títulos dos capítulos e sub-capítulos recordam um célebre livro infantil; As férias de Palomar, Palomar na Cidade, Palomar na praia, Palomar no jardim, Palomar observa o céu, Palomar no terraço, Palomar vai às compras, etc…